Enquanto gestor, sou treinado para identificar ativos de alto potencial. E hoje, afirmo com convicção que o ativo mais valioso e rentável de Portugal está a ser cronicamente subfinanciado e, em grande medida, ignorado: a Saúde do Cérebro. Falo do motor de toda a nossa criatividade, produtividade e bem-estar, um pilar que, por ser invisível, temos tratado como um dado adquirido.Quando falamos em Saúde do Cérebro, referimo-nos a algo muito maior do que a ausência de doença. Falamos de um conceito agregador que é a base do nosso capital humano. É o estado de bem-estar que nos permite aprender, trabalhar, inovar e participar plenamente na sociedade. Durante demasiado tempo, olhámos para este pilar através de uma lente fragmentada e estigmatizante, e os custos dessa visão redutora são agora inegáveis.Os números do novo relatório “Headway – Um Roteiro para o Investimento no Capital Humano”confirmam o custo desta visão redutora. As doenças neurológicas e mentais, analisadas em conjunto, constituem o grupo de doenças mais prevalente em Portugal. Estima-se que 47,1% da população seja afetada por pelo menos uma condição neurológica e que mais de um em cada cinco portugueses viva com uma doença mental. O impacto económico direto destas condições ultrapassa os 4,7 mil milhões de euros.Não vejo apenas um problema de saúde. Vejo um travão de mão puxado na nossa economia.Há, porém, um ângulo cego nesta conversa: as doenças neurológicas, e a epilepsia em particular. Enquanto a saúde mental ganhou visibilidade pública nos últimos anos, as condições neurológicas continuam à margem do debate — apesar de a epilepsia ter registado um crescimento de prevalência de 45,3% nas últimas três décadas em Portugal. Estimativas recentes sugerem que mais de 100.000 portugueses vivem com epilepsia, um númeromuito acima das estimativas oficiais. O peso económico desta condição ultrapassa os 820 milhões de euros por ano.Mas o que mais me impressiona, enquanto gestor na área da saúde, não é o custo da inação, mas o preço da oportunidade perdida. O mesmo relatório revela que cada euro investido em melhores cuidados em epilepsiapode gerar um retorno de cerca de 2 euros e o mesmo investimento em melhores cuidados de saúde mental está associado a um retorno de 4,5 euros para a sociedade. São argumentos distintos com a mesma conclusão: a Saúde do Cérebro, em toda a sua amplitude, é provavelmente o investimento de maior retorno que Portugal pode fazer.E estes dados económicos, por mais alarmantes que sejam, não contam a história toda. A verdadeira história está no custo humano. Está nos 85% de portugueses que sentem que as pessoas com doençasmentais são julgadas de forma diferente pela sociedade, sendo que apenas 25% acredita que estas pessoas recebem o mesmo nível de cuidados que aquelas com doenças físicas. Está igualmente nos 27,8% de cidadãos que precisam de apoio na área da saúde mental e não o recebem – os piores da Europa. E está também nos 44% de pessoas com epilepsia que não têm acompanhamento médico regular. E num dado que deveria causar preocupação: Portugal é o único país europeu sem uma associação nacional de doentes dedicada à epilepsia.O que estes números me dizem é que falhámos em construir uma sociedade que cuida do seu capital mais precioso. Investimos em saúde mental, mas não fomos suficientemente longe. Enquanto o debate se fixou numa parte do problema, doenças neurológicas com enorme impacto humano e económico ficaram sem representação, sem estratégia e sem orçamento adequado. Normalizámos o estigma e aceitámos que o acesso à Saúde do Cérebro seja um luxo e não um direito fundamental.Agora que temos os dados, as desculpas acabaram. A evidência é clara e a inação tornou-se indefensável. É por isso que a minha reflexão se transforma num apelo à ação. É tempo de os nossos decisores políticos traduzirem a consciência do problema em orçamentos à altura do desafio, reconhecendo a Saúde do Cérebro como a prioridade estratégica e transversal que ela é. É tempo de tratar as doenças neurológicas com a mesma urgência que tratamos outras condições prevalentes. É tempo de nós, líderes empresariais, assumirmos que a saúde mental dos nossos colaboradores não é um "extra", mas um pilar da nossa própria competitividade. E é tempo de todos nós, enquanto sociedade, sermos intolerantes com o estigma e exigirmos que cuidar do cérebro seja tão natural e digno como cuidar do coração.A questão já não é se devemos investir na Saúde do Cérebro. A questão é quão rápido conseguimos começar e se temos a determinação de o fazer por inteiro, sem deixar metade do problema na sombra. O futuro da nossa prosperidade e bem-estar depende criticamente da resposta.