As imagens vindas de Belfast na semana passada perturbam por três razões distintas.A primeira é o crime. Um homem ficou gravemente ferido num ataque à faca alegadamente cometido por um requerente de asilo. A violência do ato gerou indignação legítima e o agressor deve ser julgado e, se provada a culpa, punido.A segunda razão é o que aconteceu a seguir. Nos dias seguintes ao ataque, eclodiram motins e agressões contra casas de imigrantes. Pessoas sem qualquer ligação ao crime foram atacadas apenas por serem percecionadas como estrangeiras. A lógica era simples e errada: se pertenciam à mesma comunidade, então partilhavam a mesma culpa.Mas a reação mais digna de nota veio de onde menos se esperaria. A família da vítima apelou publicamente à calma e pediu que ninguém confundisse o agressor com uma comunidade inteira. Em plena dor, recusou transformar uma tragédia individual numa acusação coletiva.Defendeu, sem o nomear, um dos princípios fundamentais do Estado de direito.É aqui que uma democracia é posta à prova.Numa democracia, a culpa é sempre individual. A pessoa acusada responde pelos seus atos.Quem mora na porta do lado ou quem requer asilo não. Nem qualquer pessoa cuja única ligação ao agressor seja partilhar uma nacionalidade, uma religião ou uma condição migratória.Este princípio não é apenas jurídico. É civilizacional e a história mostra-nos o que acontece quando é abandonado. O que distingue a perseguição de minorias da punição de crimes concretos não é a intensidade da violência, mas a sua lógica. Num caso, pune-se um ato e no outro pune-se uma pertença.A desumanização não começa com campos de concentração, deportações ou massacres.Começa quando deixamos de olhar para pessoas e passamos a olhar para categorias. Quando deixa de ser alguém para passar a ser apenas um inimigo.É também por isso que os extremismos, apesar das diferenças ideológicas, recorrem frequentemente ao mesmo mecanismo e identificam um grupo como responsável coletivo pelos males da sociedade.Os alvos variam. Para uns são os capitalistas e as elites económicas. Para outros são os imigrantes, os estrangeiros ou as minorias. Mas a estrutura é sempre a mesma. A complexidade dos problemas reais é substituída pela clareza enganadora de um inimigo identificável.A democracia liberal nasceu, em parte, para bloquear esta lógica. Não divide o mundo entre inocentes coletivos e culpados coletivos. Exige que cada pessoa seja julgada pelos seus atos e não pela sua origem, religião, condição social ou identidade cultural.A polarização crescente torna esta exigência mais difícil. As redes sociais favorecem a indignação rápida em detrimento do raciocínio ponderado. Alguns líderes políticos descobriram que é eleitoralmente rentável alimentar a ideia de que são grupos inteiros, e não escolhas, políticas ou circunstâncias, os responsáveis pelos problemas da sociedade. É mais fácil apontar um culpado do que explicar e gerir uma realidade complexa.Mas uma democracia que cede a esta lógica não está apenas a cometer uma injustiça pontual.Está a corroer um dos princípios que sustentam a sua própria existência e a família da vítima de Belfast compreendeu isso num momento em que seria fácil não compreender.O Estado de direito não existe para proteger apenas aqueles que merecem simpatia. Existe para proteger todos. Os que são diferentes, os que parecem suspeitos e os que pertencem ao outro grupo.Porque a democracia começa quando recusamos julgar alguém pelo grupo a que pertence. E termina quando deixamos de o fazer.