Não passarão!

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“Há quem te queira ignorada

E fale pátria em teu nome.         

Eu vi-te crucificada

Nos braços negros da fome.”

 

Trova do vento que passa

Manuel Alegre

Por razões pessoais que não relevam nesta (ou, na verdade, noutra qualquer...)  sede, tenho passado ao largo de parte das mais recentes (mas, contudo, nunca desiludindo, sempre deprimentes...) polémicas à volta do Chega e/ou dos seus eleitos, excepção aberta ao programa do Ricardo Araújo Pereira que raramente desilude (e, uma vez mais, não o fez, conseguindo fazer humor com o que de mais deprimente existe).

Contudo, entre tantas, há uma notícia que, pela sua gravidade, não pode deixar de merecer a devida atenção e uma reflexão que se tarda em fazer.

Já não bastando a quantidade de nomeações estranhas, feitas a pessoas sem as mínimas qualificações para os cargos que passaram a ocupar, foi noticiado que um dos elementos eleitos pelo Chega nas últimas eleições autárquicas não achou por melhor ideia do que, segundo se diz, andar a angariar votos, além de solicitar a devida escolta a membros dos designados “1143”.

Ora, os ditos são um grupo que, confessadamente (excepto quando estão na cadeira do tribunal, altura em que se tentam passar por cordeirinhos, como eu própria tive oportunidade de assistir...) professa a ideologia nazi e o fascismo e que, entre muitos outros crimes, voltou a ameaçar Renata Cambra recentemente, depois de o seu líder ter sido condenado, entre outros, por uma conversa em que era sugerido, entre outras barbaridades, que todas as mulheres de esquerda fossem forçadas à prostituição ou, no caso concreto daquela, que era passível, presumo que por padrões estéticos, de ser violada. Sim, leram bem. Foi mesmo isto.

Até pela publicidade que têm obtido, fruto das práticas, designadamente, de extorsão e de burlas, já para não falar do tristemente célebre assassinato de Alcino Monteiro, não há a menor hipótese de alguém minimamente informado não saber quem são e o que fazem.  Atacam, quase sempre em grupo, minorias e não hesitam em usar todo o tipo de métodos para atingirem os fins a que se propõem e que, já agora, por regra são ilegais.  

Quem faz pactos com o Diabo não é, em substância, diferente deste e esta aliança que, assim que se zangaram as comadres se tornou logo conhecida, diz muito mais sobre quem solicitou os serviços dos 1143 do que sobre estes, desde logo porque os últimos estão há muito apresentados.

Podemos achar tudo normal, formatados que estamos pela falta de capacidade de pensamento e pela ausência de memória do que foi o tempo da ditadura e da pobreza que grassava pelo país. 

Deixem-me que diga que não é normal, não é aceitável e não é correcto. Torna-se ainda mais errado quando o elemento que se liga a esta gente integra um partido que se afirma impoluto (e, contudo, deve ter a maior percentagem de cadastrados de Portugal), diz querer limpar Portugal da corrupção e se afirma democrata (embora suspeite que de uma espécie de democracia bastante diversa da que existe...).  

A verdade é que uma coisa são discordâncias políticas, outra, já mais avançada, populismo e, outra ainda, esta inaceitável, alianças com criminosos profissionais.

O Chega, perante a passividade da maior parte das pessoas e dos outros pecadilhos todos, parece ter escolhido a última. Alianças com fascistas reconhecidos e confessos para conquistar seja o que for, para, depois de apanhado, negar até o conhecimento de quem eram, nem ser, é ser como eles. É ser pior e mais rasteiro ainda. E a ausência de reacção a tudo isto revela que, em algum momento, nos tornámos amorfos e desinteressados.

Há, contudo, sempre alguém que diz “não”! O meu “não” fica aqui reiterado. Não, não  passarão! Em nome dos muitos que lutaram para todos termos voz, pela igualdade entre homens e mulheres, e pela melhor distribuição da riqueza, esta gente não pode passar.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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