Ninguém joga para ganhar

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a: 

Há oito meses, nas páginas do DN, chamei ao Maxerreque e ao Corno de África um mosaico em desagregação, onde ninguém jogava para ganhar, apenas para que o outro perdesse. O que não previ foi a velocidade com que a fenda chegaria à porta.

A porta é o Bab-el-Mandeb, a entrada sul do Mar Vermelho. Em Fevereiro, os Houthis estavam retraídos, contidos pela derrota iraniana na guerra dos 12 dias. Veio depois a guerra americana e israelita contra o Irão. Teerão não precisou de fechar Ormuz, bastou-lhe assustar as seguradoras de Londres. O Mar Vermelho tornou-se a saída de emergência do petróleo saudita, desviado por oleoduto para Yanbu. Foi sobre essa saída que os Houthis declararam, em Julho, o bloqueio à Arábia Saudita. Em Setembro tomaram Mokha e, no estreito, Perim e as Hanish. A 5 de Outubro, as forças iemenitas apoiadas por Riade anunciaram ter retomado a cidade, sob cobertura aérea saudita, o que os Houthis negam. Os ataques chegaram, entretanto, aos aeroportos de Riade e de Abha, já com mortos. A peça que eu dava por sossegada é a que estala com mais força, e a porta disputa-se agora em terra e no mar.

É aqui que o mosaico se explica. Nenhum destes conflitos é apenas local. Todos são aproveitados por potências regionais que lucram com o desmoronamento, sem nunca o estabilizarem. A Arábia Saudita prega a unidade iemenita e forçou a dissolução dos separatistas que os Emirados tutelavam. Os Emirados apostam na Somalilândia contra a Somália, que a Turquia protege. E a Turquia, que molda Damasco, enquanto aperta os curdos do Rojava, estende-se do Corno ao Levante. Todos arrancam peças, ninguém as assenta. No fundo, há três velhas matrizes, a otomana, a persa e a árabe, esta última dividida entre Riade e Abu Dabi, e nenhuma reúne a força, o dinheiro e a confiança necessários para refazer o conjunto.

É este o pano de fundo que põe à prova o Pacto de Meca. Quando a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia o assinaram, em Agosto, chamei-lhe um alinhamento de conveniência, não uma aliança. Na semana passada foi activado: o New York Times noticiou caças paquistaneses a atacar os Houthis, o que Islamabad desmente, e a Turquia envia apoio técnico e defensivo. Mas, com os Houthis a atingir Riade, nem contra uma milícia deu ainda provas, e a pergunta que importa fica por responder: o guarda-chuva nuclear paquistanês cobre o Reino face a um Estado com mísseis?

Ao mesmo tempo, as margens da porta cedem. No Sudão, a queda de el-Fasher, há perto de um ano, entregou praticamente todo o Darfur às Forças de Apoio Rápido de Hemedti e partiu o país em dois. É a maior crise de deslocados do mundo e o mais parecido com um genocídio a céu aberto. No Corno, a Etiópia e a Eritreia acabam de romper relações, com a guerra a reacender-se no Tigré, enquanto Adis Abeba insiste em forçar uma saída para o mar. Quem desestabiliza as margens ameaça a porta.

Por cima de tudo, o impasse americano. Washington mantém o Irão numa guerra suspensa, feita de bloqueio económico sem bombas, exigências novas e nenhum ataque antes das intercalares. Esse limbo não contém a região, dá algum tempo a Teerão. Um Irão que não cai, nem vence, mantém vivos os proxies, e os Houthis são o que lhe resta com dentes.

E há um actor que não está no pacto e é o único que joga para ganhar. Israel aproveita a divisão entre os árabes para se instalar nos acessos à porta e no Golfo, do pé negociado em Berbera ao escudo montado nos Emirados durante a guerra, e é, em silêncio, o grande beneficiário do desmoronamento. O que fará com essa vantagem, a duas semanas das eleições de 27 de Outubro, fica para a próxima crónica.

A lição é a de sempre, agora mais nua. Não há vencedores à espera, salvo esse que não se anuncia. A conta apresenta-se na porta, por onde passa até um sétimo do comércio marítimo mundial, e paga-a também a Europa, em energia, rotas e inflação importada, sem ali ter mais do que navios que escoltam cargueiros, mas não pesam na política. Olhamos para o Mar Vermelho e para o Corno de África como periferia. São a muralha sul da nossa própria casa.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
www.dn.pt