Na ribalta das artes

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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David Hockney, há pouco falecido, tem na coleção do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian um notável exemplo da capacidade fulgurante do artista no âmbito da criação contemporânea. Refiro-me à pintura Renaissance Head de 1963, reconhecida pelo artista como marcante na evolução do seu percurso multifacetado. Pelo tema, pelo tratamento, pelas características únicas, encontramos uma síntese perfeita entre a jovialidade dos temas que o tornaram conhecido e a serena compreensão de que a criação artística tem memória e que apenas é entendida num contínuo entre as raízes e a vida quotidiana.

Como ficou demonstrado no estudo subjacente à mostra Arte Britânica, a aquisição da obra correspondeu a um momento importante da afirmação internacional da Fundação Gulbenkian em cooperação com o British Council, visando, pelo apoio à criação artística, um progresso partilhado, de que os artistas portugueses foram largamente beneficiados em contacto com os melhores artistas e escolas britânicos. Paula Rego, Bartolomeu Cid dos Santos, Menez, João Penalva, Eduardo Batarda, Graça Pereira Coutinho, Fernando Calhau e Rui Sanches são referências fundamentais que demonstram o efeito de uma orientação estratégica virada para um futuro de abertura de horizontes, de partilha criadora e de diálogo intercultural.

José-Augusto França na sua História da Arte em Portugal no século XX, agora reeditada pela Imprensa Nacional, fala-nos da influência crucial desempenhada pela Gulbenkian na evolução da cultura portuguesa em geral. E o exemplo da experiência da Arte Britânica é demonstrativo disso mesmo.

De facto, uma parte significativa da coleção de arte britânica do CAM foi constituída num momento-chave para o Reino Unido. É o período da recuperação económica no imediato pós-guerra, em que o inconformismo artístico se fez sentir. É a década da efervescência cultural e artística dos “Swinging Sixties” num vai-e-vem em que David Hockney e Mark Lancaster partiram para os Estados Unidos em busca de mais liberdade, e em que os artistas portugueses e outros vieram para Londres num movimento de abertura de múltiplos sentidos, em diálogo com os criadores vindos da Commonwealth, o que favoreceu a perspetiva de emancipação de novos países e culturas.

Ana Vasconcelos e Sarah MacDougall salientaram-no exemplarmente em Arte Britânica - Ponto de Fuga (Tinta da China, 2025). Londres tornou-se um centro artístico de grande vitalidade. E é digna de destaque a complementaridade entre as ações do British Council e o apoio dado pela Fundação, alargando horizontes, com subsídios a instituições britânicas, aquisições e prémios a artistas – o que enriqueceria a coleção do CAM, dando-lhe um lugar especial da contemporaneidade, com o surgimento de artistas novos com projeção internacional. O caso de Paula Rego é bem ilustrativo, merecendo destaque o testemunho emocionante de Nick Willing sobre a amizade entre Paula e Menez, que assume um significado especial no período em causa.

Dir-se-ia que, graças a esta experiência, o envolvimento dos artistas portugueses projetou-os para a ribalta britânica e universal, ao lado dos mais representativos. E, hoje, quando relembramos a extraordinária personagem e a obra de David Hockney e a galáxia em que se integrou, compreendemos por que razão quis juntar na sua última grande mostra antológica uma obra marcante da coleção Gulbenkian.

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