Mulheres: “Crianças, cozinha, igreja”

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Nos últimos anos tenho tido a possibilidade de escrever publicamente sobre o Dia Internacional da Mulher. Este ano não será exceção e não desaproveitarei a oportunidade para salientar a importância de assinalar este dia. Que é, antes de mais e sobretudo, um dia para lembrar e celebrar a luta pela liberdade e pela igualdade.

As mulheres estão sub-representadas no espaço público, na política, na direção das grandes empresas, nos cargos de liderança, na ciência. Em suma, nos lugares de poder.

As mulheres auferem remunerações mensais inferiores em cerca de 15% às dos homens, para trabalho e qualificações iguais, isto apesar de serem mais qualificadas (no ensino superior, as mulheres representam atualmente 58% dos licenciados em Portugal). Isto significa que, na comparação com os seus colegas homens, as mulheres trabalham cerca de dois meses “de graça”.

A isto acrescem as tarefas de casa e como cuidadoras de pais, sogros, filhos e outros familiares. Trabalho invisível, não remunerado, secundarizado, extenuante física e emocionalmente.

A violência doméstica é o crime mais reportado em Portugal e os números do femicídio mantêm-se elevados.

Tudo isto acontece ainda em Portugal. Noutras latitudes a situação é muito pior. As mulheres são discriminadas, impedidas de estudar e de trabalhar, privadas de liberdade, forçadas a casar em meninas, a engravidar e a abortar, humilhadas, assediadas, vendidas, trocadas, abusadas sexualmente, violadas, lapidadas, torturadas, mortas.

É verdade que se percorreu um longo caminho desde meados do século XX, sobretudo a partir da década de 60, em particular no Ocidente. Contudo, começámos a retroceder antes mesmo de ter atingido a igualdade plena. As mulheres têm acesso às mesmas atividades, por exemplo na profissão ou no desporto, mas o seu desempenho é desvalorizado, como aconteceu recentemente à seleção feminina de hóquei no gelo dos EUA, vencedora da medalha de ouro olímpica, sobre a qual Trump fez publicamente comentários depreciativos.

Estamos a retroceder porque têm crescido ideologias e forças sociais e políticas que enaltecem a imagem feminina assente nos “três k” do nazismo, “kinder, küche, kirche (crianças, cozinha, igreja). Não a mulher independente, emancipada e livre, mas a mulher-mãe, a mulher-esposa, a mulher-dona de casa, a mulher-cuidadora. É subjugação disfarçada de proteção. É menorização disfarçada de elogio.

Hoje há movimentos que defendem o estereótipo da mulher dedicada à vida doméstica e à reprodução, retirada do espaço público. Ser mãe é algo maravilhoso, mas não é a maternidade que define - e muito menos pode limitar - o papel da mulher.

Esta misoginia paternalista valoriza a mulher submissa, mas ataca as mulheres livres e independentes. Os influenciadores que difundem conteúdos violentos, sexistas e machistas proliferam nas redes sociais.

No Dia da Mulher há que recordar as palavras intemporais de Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”

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