Muda-se o ser, muda-se a confiança

Luís Parreirão

Advogado e gestor

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Portugal vem assistindo a uma coreografia que se pretende tão imprevisível que já todos lhe percebemos o final.

Andava o governo, e o partido que o suporta, a tentar passar a mensagem que era, agora, a força central do sistema partidário português quando é surpreendido por sucessivas entradas em cena do anterior actor principal, sem intervenção do compère.

Numa vertigem comunicacional loquaz, longamente ensaiada, e, até, com artistas convidados, lá se foi explicando que o governo não governava, vivia na indefinição e, pior, tal só acontecia porque voluntariamente se queria postergar a nova realidade eleitoral.

Pois se estava ali à mão uma salvífica solução maioritária que se não queria adoptar, a responsabilidade só podia ser imputada a um poder relapso.

E é assim que, com uma coreografia que visava conduzir à mudança do actor principal, acabaram a consolidar os actuais protagonistas.

Tantas palestras, tantos discursos, tantos desafios instilaram o temor da finitude e, isso é que não!

Por isso, e em nome disso, assistimos à colonização ideológico-táctica do PSD pelo Chega e à consequente reconfiguração, pelo menos no imediato, do nosso sistema político.

A direita portuguesa fica, assim, unida, perdendo o centro político e caminhando para a diluição do PPD num melting pot liderado pela extrema-direita que pretenderá, por esta via, evoluir para se reconfigurar como uma mais respeitável direita radical.

Claro que, enquanto a evolução se vai processando, procurarão desprestigiar as instituições da República; irão sendo adoptadas causas populistas que não traduzem qualquer estratégia, antes são, só e apenas, uma certa “pesca à linha” de bolsas eleitorais.

Estando a esquerda, à esquerda do PS, desfeita, o PS está confrontado com o desígnio de regressar à sua matricial e fundadora natureza.

Na reconfiguração em curso, e alienando a direita o que de social-democrata e, até, social-cristão, lhe restava, o desafio do Partido Socialista é o de ser capaz de representar o centro político e a esquerda democrática, dando resposta estratégica às grandes questões nacionais.

É, de uma certa forma, e por razões diversas, um regresso a 1975/1976. E é um bom regresso, é o regresso à sua matriz fundadora.

Nesta plasticidade que o sistema político, os sistemas políticos, sempre têm, é prudente que os actores políticos não ensaiem a coreografia de condicionar, ou ditar regras, o Presidente da República.

Após cinco décadas de cinco Presidentes sabemos todos que cada um interpreta o exercício da função diversamente.

Por outro lado, os portugueses foram claros no mandato conferido, sobretudo porque configurado no conhecimento integral do quadro político actual.

Os portugueses fizeram, em 8 de Fevereiro, o que quiseram fazer sem qualquer engano, ou margem interpretativa.

E se o poeta, desaparecido com o ocaso transitório da pátria, numa ode ao devir e à alteridade disse:

“todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades”

Neste século da Inteligência Artificial, talvez nos devamos também inspirar em Pessoa:

“Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena “

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