Ahmad al-Sharaa, o antigo jihadista que é o homem forte da Síria depois de, em dezembro de 2024, ter posto fim a 54 anos de poder da família Al-Assad, já foi recebido na Casa Branca e no Kremlin, mas as imagens do encontro de ontem com o presidente francês têm uma simbologia especial, não só por serem em Damasco, mas porque Emmanuel Macron é o presidente da antiga potência colonial. Ambos de camisa branca, sem gravata, descontraídos, Macron até de óculos de sol, passaram uma imagem de cumplicidade que confirma que esta nova Síria, da qual Al-Sharaa é presidente, está a ser integrada na comunidade internacional. Não só as sanções que vinham do tempo de Bashar al-Assad – que durante 13 anos resistiu a uma guerra civil como o pai, Hafez, nunca imaginaria possível –, começam a ser levantadas, como o novo regime acredita ser capaz de atrair investidores estrangeiros.Contudo, o voto de confiança no novo poder não deve ser absoluto, não só pelas origens jihadistas de muitas das suas figuras, como pela forma como lidam com as minorias sírias..Al-Sharaa sabe que a maior parte da população não sente qualquer saudade dos tempos dos Assad, pai ou filho, mas que os alauitas, os drusos, os curdos e os cristãos têm razão para estar preocupados com o futuro. No caso dos alauitas, a minoria a que pertencia Hafez al-Assad, presidente entre 1970 e 2000, e Bashar al-Assad, seu sucessor, a situação é especialmente preocupante, pois são acusados de lealdade ao antigo regime e já sofreram massacres desde a mudança. Mas também drusos e curdos, de formas diferentes, foram obrigados a compromissos com os novos governantes, os primeiros num dado momento até a beneficiar de proteção militar israelita, enquanto os segundos tiveram de desistir de território tomado antes pelas suas milícias.A guerra civil síria começou em 2011 com protestos pacíficos contra Bashar al-Assad, no âmbito da Primavera Árabe que derrubou os ditadores tunisino, líbio, egípcio e iemenita. Mas depressa evoluiu para uma guerra total, em que vários interesses se sobrepunham, com intervenção militar de países como a Rússia, protetora de Assad, da Turquia, preocupada com o separatismo curdo e a sua contaminação além-fronteiras, também dos Estados Unidos, empenhados em combater o Estado Islâmico, que aproveitou o caos na Síria (e no vizinho Iraque) para tentar criar um califado. Também o Irão apoiou Assad, até via o Hezbollah libanês, que se envolveu muito no conflito. Israel foi bombardeando estrategicamente sempre que entendeu ser necessário para a sua segurança, tal como aconteceu já com este novo regime.."Macron falou da necessidade de na Síria à ditadura da família Al-Assad ter de suceder um verdadeiro Estado de Direito e esteve bem. As minorias têm de ser protegidas.”.Nisto de futuro das minorias, o caso dos cristãos árabes é um problema e não só na Síria. Najib George Awad, um académico sírio-americano que esteve em Lisboa para uma iniciativa do KAICIID, organização internacional que promove o diálogo inter-religioso e intercultural, falou com o DN sobre a falta de confiança no país da comunidade cristã, lembrando que eram 8 a 10% dos sírios antes da guerra, e que agora, após tantas mortes e um êxodo enorme, não será mais de 2 ou 3%, arriscando a numa década quase desaparecer. É uma estimativa, até por não haver dados fiáveis num país tão destruído, mas coincide com o que aconteceu no Iraque depois da queda de Saddam Hussein, derrubado em 2003 por uma ação militar americana. O ciclo de guerras e terrorismo que se seguiu empurrou grande número de cristãos para fora do país, ao ponto de o papa Francisco ter visitado o Iraque para elogiar os que teimavam em ficar.Damasco, onde está Macron, foi tomada em 1918 aos turcos pelas tropas árabes de Faisal, o amigo do famoso Lawrence da Arábia. Mas depois a partilha do Médio Oriente entre britânicos e franceses atribuiu a Síria histórica aos franceses e estes instalaram-se em Damasco, criando pelo meio o Líbano. Finalmente em 1946, cumprindo uma promessa do general Charles de Gaulle, a Síria ganhou a independência.Esta relação histórica, que teve episódios também no tempo das Cruzadas, dá à França peso, mas também responsabilidade. E a exigência ao presidente sírio de um esforço sério para preservar o mosaico étnico-religioso do país deve ser feita por Paris, tal como por outras capitais ocidentais. Macron falou da necessidade de a uma ditadura suceder um verdadeiro Estado de Direito e esteve bem. O líder francês, que não teve medo das bombas que explodiram em Damasco, apelou ainda uma Síria “plenamente soberana, segura, pluralista e unida”.