Um militar a retirar em ombros uma ovelha de uma zona que tinha ficado submersa pelas águas do rio Lis. Um barco da Marinha a fazer de táxi, transportando pessoas que haviam ficado retidas em aldeias isoladas para irem fazer algo tão simples como compras de supermercado. Uma equipa clínica das Forças Armadas a fazer exames de rotina a uma idosa que estava há dias sem conseguir deslocar-se ao médico. Durante semanas, quando Portugal foi assolado pelo devastador comboio de tempestades, as imagens de elementos das Forças Armadas a participarem nas operações de socorro foram uma constante no ciclo noticioso, mesmo que o arranque desse apoio tenha merecido reparos por parte dos autarcas das regiões mais afetadas, que se queixaram de alguma lentidão na chegada ao terreno.Certo é que, passada a fase de maior sufoco, a avaliação que os portugueses fazem do trabalho das Forças Armadas no apoio à população é bastante positiva. A conclusão resulta do Barómetro DN / Aximage que publicamos esta terça-feira, 10 de março, cujo trabalho de campo decorreu nos dias 2 e 3 março, no qual 78% dos inquiridos consideram positiva (55%) ou muito positiva (23%) a intervenção dos militares, sendo que quando a pergunta é feita a residentes na zona Centro de Portugal – a mais atingida pelos fenómenos atmosféricos e, consequentemente, a região onde mais habitantes testemunharam em primeira mão o trabalho das Forças Armadas – a percentagem de opiniões favoráveis é de 72%.Os dados assumem ainda maior relevância para a imagem dos militares porque o barómetro compara a ação destes com a dos autarcas e a do Governo. E se os primeiros conseguem nota positiva (69%), já o desempenho do Governo é criticado, com 58% de avaliações negativas. A gestão atribulada da crise levou, inclusive, à demissão de Maria Lúcia Amaral da Administração Interna.A maior utilização de meios humanos e logísticos das Forças Armadas em operações que não sejam apenas a defesa e patrulhamento do território ou missões e exercícios militares internacionais é um caminho sem retorno, até porque não traz desvantagens a ninguém. Embora a guerra da Ucrânia tenha feito despertar entre os portugueses (e Europeus em geral) uma maior consciência para a importância da Defesa, o investimento financeiro que é necessário fazer nesse reforço, para melhor ser compreendido, precisa de traduzir-se em mais-valias que vão ao encontro daquela que é a realidade diária da população, principalmente em alturas críticas como a época de fogos ou as intempéries cada vez mais severas que o país enfrenta.O chamado ‘duplo uso’ das Forças Armadas é uma situação win-win, todos ficam a ganhar. No entanto, para ser eficaz, mais do que um conceito deve tornar-se o modelo padrão. E, para este ser expedito, é preciso afinar a articulação entre Proteção Civil e Forças Armadas, como pediu, de resto, Marcelo Rebelo de Sousa antes da deixar a Presidência. Há que ter em conta a regra de ouro dos militares: tem de haver uma ordem. E, quando esta é mais urgente, importa que não fique a arrastar-se pelos labirintos burocráticos do Estado.