Espanha é um país mais rico do que Portugal. Não é o único na UE e na Zona Euro, mas está aqui ao lado – entrou para a UE no mesmo ano que nós, pelo que serve bem como exemplo. A produtividade em Espanha é, sem surpresa, maior do que em Portugal, pelo que os salários são maiores e o PIB per capita real é 55% superior ao português. Mas a riqueza média das famílias espanholas não parece acompanhar estes indicadores. Ou melhor, a riqueza das famílias portuguesas não reflete, comparativamente, a situação económica que temos em Portugal, quer a evolução macro enquanto país, quer a evolução dos salários que por cá se praticam.Explico. O património real detido em média por uma família portuguesa, depois de descontadas todas as dívidas, situa-se em 278,3 mil euros, um valor que ontem foi revisto em baixa pelo INE e o Banco de Portugal. Uma nota: a riqueza não despencou desde maio, simplesmente as duas entidades fizeram um erro no apuramento inicial (que era de 291 mil euros) e corrigiram agora.Mesmo o número revisto não é nada pequeno. Basta comparar com os 344 mil euros (+23%) em média da família espanhola.. E aqui começa a instalar-se um paradoxo. Como é que num país em que o salário médio ronda os 1500 euros brutos cada família, em média, detém este nível de riqueza? Os portugueses poupam? Não muito. Em regra põem cerca de 12% do salário de lado, mas como o salário é baixo poupam bastante menos, em termos absolutos, do que os espanhóis. Os portugueses investem o seu dinheiro em títulos e ações? Também não. Quanto muito têm um PPR ultrasseguro (e bem) ou compram Certificados de Aforro (nos momentos em que deu na televisão e os vizinhos também estão a comprar) para, pelo menos, não perderem dinheiro com a inflação.Mas há um bem em que, historicamente, os portugueses sempre investiram o seu dinheiro: imobiliário. Quase três em cada quatro portugueses vivem em casa própria, a maioria apenas com uma pequena percentagem ainda hipotecada (ou com toda a dívida ao banco paga). Como explica o INE: “A riqueza líquida média (…) aumentou cerca de 21% em termos reais em relação a 2020. (…) Em grande parte, esta evolução foi determinada pelo aumento do valor dos ativos reais, num contexto de forte crescimento dos preços da habitação.” Ou seja, desde 2020, o preço das casas disparou e, com isso, os portugueses ficaram, pelo menos no papel, mais ricos.É uma situação que revela um paradoxo social profundo. Portugal tornou-se um país de património rico, mas paga salários pobres. Uma economia em que o enriquecimento ocorre maioritariamente por via da propriedade herdada ou da especulação imobiliária, e não pelo rendimento do trabalho, lastra ainda mais os trabalhadores sem património. E empurra os mais jovens para o trabalho fora do país. .“Como explica o INE: 'A riqueza líquida média (…) aumentou cerca de 21% em termos reais em relação a 2020. (…) Em grande parte,(...), num contexto de forte crescimento dos preços da habitação.' Ou seja, desde 2020, o preço das casas disparou e, com isso, os portugueses ficaram, pelo menos no papel, mais ricos.". Não falta muito para que a distribuição dos fundos europeus seja profundamente alterada. As verbas que Portugal vai receber podem nunca vir a ser tão grandes, ou sequer perto disso, como já foram. E vai enfrentar esse novo desafio com sérios soluços nos elevadores sociais. O trabalho em Portugal perdeu a capacidade de gerar riqueza autónoma. Quem depende exclusivamente do salário depara-se com um teto de vidro, esmagado entre impostos e o custo da habitação. E os proprietários beneficiam de uma almofada financeira gerada pelo mercado imobiliário, mas que também é escrava das suas mudanças de humor. O conforto nem é assim tão grande, uma vez que, neste cenário, é inteiramente possível ser-se praticamente milionário e, mesmo assim, não ter dinheiro para pagar todas as compras na fila do supermercado.