A política portuguesa vive presa ao calendário. Discutimos os incêndios no Verão, as cheias no Inverno e a falta de professores em Setembro. Durante umas semanas toda a gente fala do assunto. Depois o problema acalma, sai das notícias, e o problema volta para a gaveta. As reformas ficam sempre para depois, porque nunca há tempo para as preparar nem coragem para as executar.
Foi a pensar nisto que o iLab, o gabinete de estudos da Iniciativa Liberal, organizou os Fóruns do Futuro. Vão ser seis encontros até ao próximo ano, cada um sobre um tema que pesa no futuro do país: saúde, inteligência artificial, habitação, reforma do Estado, Segurança Social e reforma fiscal. Queremos ouvir quem conhece a realidade por dentro, quem trabalha no terreno, gere serviços, estuda os problemas e os sente na pele.
Hoje começamos pela saúde, no Pavilhão de Portugal, em Lisboa. Vamos discutir duas coisas: como se garante que as pessoas têm cuidados de qualidade quando precisam deles, e o que a tecnologia pode mudar num sistema que está no limite.
Escolhemos a saúde para abrir porque é a área onde mais se promete e menos se cumpre. Os Verões trazem urgências fechadas por falta de médicos. Há milhares de doentes que esperam mais do que a lei lhes garante. E cada Governo que chega traz o seu plano.
Este trouxe mais do que um. Em 2024, Luís Montenegro garantiu que até ao fim de 2025 acabariam as esperas acima dos prazos legais. O plano de emergência foi aprovado com muita solenidade, várias medidas urgentes ficaram pelo caminho e, quando se percebeu que não chegava, começou a preparar-se outro.
O prazo terminou há nove meses. Em Junho havia 88 mil pessoas à espera de uma cirurgia para lá do tempo que a lei lhes garante, mais 18% do que um ano antes. O Governo respondeu alargando os prazos legais e pedindo aos hospitais que congelassem consultas e cirurgias, para poupar. Em vez de tratar as pessoas a tempo, mudou o que conta como “a tempo”. Mesmo assim, em Maio, disse no Parlamento que o plano tinha sido um sucesso. Custa-me perceber o que entendem por sucesso.
PSD e PS vão-se revezando no poder há décadas e, na saúde, pensam de forma muito parecida. Acreditam que o SNS se salva com mais um plano e mais dinheiro, e nunca mexem na forma como o sistema está organizado. Entretanto, os portugueses pagam a saúde duas vezes, nos impostos e do próprio bolso. Quem tem dinheiro vai ao privado, os outros ficam à espera.
A liberdade de escolha na saúde já existe em Portugal, mas está reservada a quem a pode pagar. É com essa injustiça que temos de acabar, porque a doença não escolhe carteiras e um sistema que só dá escolha a quem tem dinheiro deixou de ser universal. Quem espera por uma cirurgia ou por uma urgência aberta não precisa de mais planos. Precisa que os problemas se resolvam, venha a resposta do público, do privado ou do social. É para isso que hoje vamos ouvir quem os conhece por dentro.