Acompanhei uma patrulha dos Comandos portugueses em Cabul em 2005, blindados a acelerar por ruas onde muitos olhares deixavam adivinhar hostilidade às tropas estrangeiras que se propunham libertar o país de vez dos talibãs. Não creio que os afegãos com quem me cruzei tivessem algo em concreto contra os militares portugueses, nem talvez contra a ISAF em geral, a força internacional liderada pela NATO. Mas estava na sua tradição resistir aos estrangeiros que entravam na sua terra, fossem os britânicos no século XIX, os soviéticos no século XX ou os americanos e seus aliados no século XXI.
Os talibãs sabiam que o tempo corria a seu favor. O objetivo americano de desenvolver e democratizar o Afeganistão era tão ambicioso, que o mais provável mesmo era fracassar. E fracassou. Quando Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, faz agora cinco anos, decidiu retirar as tropas e deixar os afegãos entregues ao seu destino, a liderança pós-talibãs caiu como um castelo de cartas. E se o célebre mullah Omar não regressou ao poder em 2021, duas décadas depois de ser derrubado, foi por já ter morrido.
Hoje quem manda em Cabul é Hibatullah Akhundzada, teólogo defensor de uma visão obscurantista do Islão, opressora em geral, mas sobretudo para as mulheres. Ir à escola agora só é possível para as raparigas até aos 12 anos.
Os talibãs não caíram em 2001 por causa de serem um regime fundamentalista islâmico. Omar teve de fugir porque os americanos decidiram puni-lo por recusar-se a entregar Osama bin Laden, líder da Al-Qaeda. O código tribal dos pastunes, a principal etnia afegã e base de recrutamento dos talibãs, obrigava-o a proteger o hóspede, mesmo sendo o saudita o promotor dos atentados de 11 de setembro de 2001, que destruíram as Torres Gémeas de Nova Iorque.
George W. Bush, um presidente eleito debaixo de polémica, fez da Guerra ao Terror uma prioridade, e a exportação da democracia um objetivo a par da destruição da Al-Qaeda e suas ramificações. Tirar os talibãs do poder foi aplaudido pelo mundo. Nos cinco anos em que instituíram um emirado islâmico tinham governado de forma tão extremista que destruíram a tiro de canhão estátuas de Buda e proibiram a música.
O regresso dos talibãs, em 2021, deveu-se ao fracasso dos rivais afegãos, desde logo do presidente Ashraf Ghani, que tolerou um sistema corrupto e não se aguentou sem apoio externo. Também o surgimento dos “estudantes de teologia” em 1994 tinha sido culpa da incompetência, e devassidão, dos mujaedines, que tinham derrubado o regime comunista e expulsado os soviéticos.
Em Cabul, cruzei-me com o sargento Roma Pereira, que morreu lá. E com o sargento Carlos Barry, em cujo blindado segui, e que seria ferido em combate. Morreram mais de 3500 militares da força internacional, sobretudo americanos. Dois eram portugueses (além de Roma Pereira, o paraquedista Sérgio Pedrosa - a minha homenagem a ambos).
Derrubar um regime que oprimia o povo e albergava terroristas, e ajudar a construir um país melhor, foi uma guerra que fez sentido. As razões por que foi perdida merece reflexão. Se quem ajuda parece invasor, é improvável resultar.