Marilyn Monroe, a atriz do cinema mais famosa da década de 1950, nasceu há 100 anos. Li por estes dias inúmeros artigos que reproduziram as frases feitas habituais: “a loira mais famosa de Hollywood”, “o eterno símbolo sexual”, “a amante secreta dos Kennedy”, “a estrela que tinha tudo, menos paz”. Nada de novo... De repente surgiu-me na internet uma fotografia de Marilyn em fundo vermelho, encimada por uma foice e um martelo, mais este título: “Feliz 100.º Aniversário camarada Marilyn”... Isto sim, é novidade!Tratava-se de um comunicado do britânico Communist Party, cujo texto reproduzo na tradução que fiz: “Hoje (dia 1 de junho) assinala-se o centenário do nascimento de Norma Jeane Mortenson, a mulher que o mundo conheceu como Marilyn Monroe. “Enquanto a imprensa burguesa continua a espantar-se perante o fantasma de um ícone fabricado, o Partido Comunista da Grã-Bretanha reivindica a intelectual e a camarada.“A sua política nasceu da linha de montagem. Dos lares de acolhimento de Los Angeles à fábrica de munições da Radioplane, a consciência de classe de Monroe foi forjada no calor da sobrevivência proletária. Era uma mulher de inteligência feroz, possuidora de um QI que diminuía os homens que procuravam geri-la, mas foi reduzida a uma mercadoria para ser comprada, vendida e trocada pelo sistema parasitário dos estúdios.“Os ficheiros do FBI, que a seguiram até ao seu último suspiro, confirmam aquilo que o sistema temia: um símbolo sexual que lia Marx e admirava a Revolução Chinesa. Foi uma militante antirracista que usou a sua plataforma para romper a barreira racial em favor de Ella Fitzgerald, e que se manteve firme contra a cobardia das caças às bruxas macarthistas quando se casou com o dramaturgo perseguido Arthur Miller.“Temos de reconhecer que a luta de Monroe se situou na interseção entre a exploração de classe e a violência patriarcal. Foi uma trabalhadora cujo trabalho era o seu próprio corpo, sobre-explorada por um sistema que exigia que fosse bela e silenciosa. A sua vida foi um ato constante de rebelião contra o olhar masculino do capital. No seu 100.º aniversário, não celebramos uma ‘bomba sexual’. Honramos uma socialista lúcida que compreendeu que a libertação da sua classe era inseparável da libertação do seu sexo. “Feliz Centenário, Camarada Marilyn. A luta continua.” Os factos referidos neste texto são verdadeiros, mas não faço a mínima ideia se Marilyn Monroe era, ou não, comunista, se era, portanto, minha camarada.Sei, porém, que a História nunca chega até nós como matéria pura.Quem olha para Marilyn a partir da crítica marxista vê nela a trabalhadora explorada pela indústria cultural, a mulher convertida em mercadoria, a vítima de uma sociedade que lucrava com o seu corpo enquanto desprezava a sua inteligência.Quem a olha a partir da mitologia liberal de Hollywood prefere ver a história da rapariga pobre que conquistou o mundo pelo talento, pela beleza e pela força de vontade.Quem a olha a partir do feminismo contemporâneo tende a sublinhar a violência patriarcal, a medicalização do sofrimento, a exploração sexualizada e a luta por autonomia.Quem a olha a partir da cultura pop vê sobretudo a imagem: o ícone eternamente reprodutível e uma vida dramática que dava um romance.Nenhuma destas leituras é neutra e o que se escreve e se diz sobre Marilyn é um bom exemplo da forma como o século XXI lê o século XX, sempre como arma de combate político. Não, a História nunca é neutra.