O que nos fascina na Ilíada e na Odisseia é a coexistência, sem o dilacerado conflito ou a desesperada moralização que é a nossa, entre a violência mais extrema e a piedade mais profunda. Neste tempo em que defrontamos violências sem limite com as mais hipócritas justificações, reencontrar os gregos é defrontar a estranheza que acompanha o nosso entendimento do ethos das sociedades que criaram e dos poemas que hoje nos interpelam.A guerra moderna faz-se à distância, com os militares a controlarem, com os seus telecomandos, os mísseis e os drones apontados para os civis. A guerra de trincheiras e posições subsiste como uma necessidade física, mas deixou de ser essencial. A guerra, hoje, não se faz entre soldados, faz-se sobre as populações.A violência da guerra tem como contraponto a violência das fronteiras. Se, com a globalização e as modernas tecnologias, o capital deixou de ter fronteiras, o peso dos limites territoriais dos Estados e a violência que lhe é inerente passou para os muros que se erguem para conter, se necessário com a morte, as migrações do mundo. O Mediterrâneo, Mare Nostrum, passou a ser o cemitério que espelha, numa cruel caricatura, a perversa mundialização que criámos.Ceuta é um desses enclaves da Europa nos outros continentes, que perdura desde a conquista pelos portugueses, em 1415, e escolheu, em 1640, ficar sob o domínio de Espanha, situação que se veio a prolongar atá aos nossos dias. Mantém, paradoxalmente, as armas de Portugal no seu brasão e é reivindicada por Marrocos como parte integrante do seu território.Os precedentes de súbitos surtos migratórios de massa nas fronteiras externas da União Europeia têm servido aos Estados donde eles provêm, seja a Turquia, seja Marrocos, para mostrar o seu poder na contenção das migrações e para exigir, à Europa ou aos Estados limítrofes como a Espanha, um preço político. O que se passou agora em Ceuta tem claros antecedentes e múltiplas motivações.É uma derrota ignominiosa, para a Europa, a posição de 22 dos seus 27 Estados-membros ao condenarem a Espanha e a sua política migratória, enquanto fonte de um risco de invasão da Europa por africanos, que afinal nunca saíram da África, de onde foram instigados a partir por misteriosas “redes sociais”. Honra a Portugal, que (com a França, o Luxemburgo e a Irlanda) assumiu uma posição de bom senso, que os 22 parecem ter perdido.Ceuta não faz parte do Espaço Schengen, como estabelece claramente o tratado que criou este espaço de livre circulação, que muitos desejam encerrar. O acesso a Ceuta não é nem geograficamente, nem juridicamente, acesso à Europa. A mistificação criada serve outros objetivos.A miséria do mundo vem bater violentamente às nossas portas e oscilamos entre Cila e Caríbdis (como os gregos chamavam às duas pontas que limitam o Estreito de Gibraltar), entre a generosidade de uma política de acolhimento, que custou a vida política a Angela Merkel, e as múltiplas versões de fechamento, mais ou menos restritivas, conforme a popularidade relativa dos atuais governos europeus.