‘Mare Nostrum’

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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O que nos fascina na Ilíada e na Odisseia é a coexistência, sem o dilacerado conflito ou a desesperada moralização que é a nossa, entre a violência mais extrema e a piedade mais profunda. Neste tempo em que defrontamos violências sem limite com as mais hipócritas justificações, reencontrar os gregos é defrontar a estranheza que acompanha o nosso entendimento do ethos das sociedades que criaram e dos poemas que hoje nos interpelam.

A guerra moderna faz-se à distância, com os militares a controlarem, com os seus telecomandos, os mísseis e os drones apontados para os civis. A guerra de trincheiras e posições subsiste como uma necessidade física, mas deixou de ser essencial. A guerra, hoje, não se faz entre soldados, faz-se sobre as populações.

A violência da guerra tem como contraponto a violência das fronteiras. Se, com a globalização e as modernas tecnologias, o capital deixou de ter fronteiras, o peso dos limites territoriais dos Estados e a violência que lhe é inerente passou para os muros que se erguem para conter, se necessário com a morte, as migrações do mundo. O Mediterrâneo, Mare Nostrum, passou a ser o cemitério que espelha, numa cruel caricatura, a perversa mundialização que criámos.

Ceuta é um desses enclaves da Europa nos outros continentes, que perdura desde a conquista pelos portugueses, em 1415, e escolheu, em 1640, ficar sob o domínio de Espanha, situação que se veio a prolongar atá aos nossos dias. Mantém, paradoxalmente, as armas de Portugal no seu brasão e é reivindicada por Marrocos como parte integrante do seu território.

Os precedentes de súbitos surtos migratórios de massa nas fronteiras externas da União Europeia têm servido aos Estados donde eles provêm, seja a Turquia, seja Marrocos, para mostrar o seu poder na contenção das migrações e para exigir, à Europa ou aos Estados limítrofes como a Espanha, um preço político. O que se passou agora em Ceuta tem claros antecedentes e múltiplas motivações.

É uma derrota ignominiosa, para a Europa, a posição de 22 dos seus 27 Estados-membros ao condenarem a Espanha e a sua política migratória, enquanto fonte de um risco de invasão da Europa por africanos, que afinal nunca saíram da África, de onde foram instigados a partir por misteriosas “redes sociais”. Honra a Portugal, que (com a França, o Luxemburgo e a Irlanda) assumiu uma posição de bom senso, que os 22 parecem ter perdido.

Ceuta não faz parte do Espaço Schengen, como estabelece claramente o tratado que criou este espaço de livre circulação, que muitos desejam encerrar. O acesso a Ceuta não é nem geograficamente, nem juridicamente, acesso à Europa. A mistificação criada serve outros objetivos.

A miséria do mundo vem bater violentamente às nossas portas e oscilamos entre Cila e Caríbdis (como os gregos chamavam às duas pontas que limitam o Estreito de Gibraltar), entre a generosidade de uma política de acolhimento, que custou a vida política a Angela Merkel, e as múltiplas versões de fechamento, mais ou menos restritivas, conforme a popularidade relativa dos atuais governos europeus.

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