Marcello Duarte Mathias, este verão

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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A minha quantidade de leituras neste agosto foi a mais escassa dos últimos anos: a reunião de uma família espalhada por muitos horizontes, de Portimão a Viena, de Bruxelas a Paris, desviou-me a atenção para todos eles.

Dos livros que percorri nestas férias, com atenção variável, gostaria de salientar o último (no sentido de “mais recente”) volume do notável conjunto diarístico de Marcello Duarte Mathias (vai no sétimo tomo), que o autor intitulou desta vez Intervalo, cobrindo os anos de 2024 e 2025, e fez seguir de um conjunto de artigos e ensaios, sob o título A Memória dos Outros III.

Como observa, com lucidez, o autor “o diarista está sempre a regressar ao ponto de partida”, porque o anjo com que luta (diria eu) é apenas ele próprio, num pacto de confiança consigo, que faz do diário, por fim, “tão-só parte do caminho, que apenas terá fim com a morte do autor” (página 166).

Marcello Mathias é senhor de uma lucidez cortante, que não invalida os pressupostos básicos individuais, com que se forma um espírito, e que orienta sem fim a nossa busca: a premissa maior pessoal, de que falava Huxley, aquilo que dá um fio de continuidade à nossa errância.

Por mim, estando longe embora de muitos dos seus pressupostos, sempre admirei nos escritos de Marcello Mathias a penetrante inteligência, a sensibilidade cultural, especialmente literária, e um ceticismo que, mesmo quando virado contra as minhas próprias premissas maiores pessoais, introduz um vento de liberdade nas suas afirmações, que areja algum saudosismo que possa (com toda a legitimidade) vir nelas expresso.

Como ele diz em relação a José Cutileiro, e a consideração poderia aplicar-se-lhe: “Em regra o cético é bom conversador, pela simples razão de que aborda qualquer assunto sem apriorismos ideológicos ou morais” (página 129). Ainda que esses apriorismos nunca sejam completamente evitáveis, porque constituem as nossas tais “premissas maiores pessoais”, não tenho dúvida de que algum ceticismo faz falta para arejar estes tempos que vivemos entre valores dogmáticos, rígidos e fechados, e promessas de cada vez maior desumanidade.

De resto, no prefácio ao seu livro O Português Visto Por (Alguns) Portugueses, que o autor reproduziu nesta obra, nota-se uma notável abertura e compreensão relativamente a pensamentos e atitudes bem diferentes dos seus posicionamentos, mas que Marcello Mathias valoriza, sem quaisquer restrições ideológicas.

Da mesma maneira, sobre o livro de Francisco Seixas da Costa Antes Que Me Esqueça, acima de quaisquer diferenças políticas, Marcello Duarte Mathias enaltece “o patriota que no exercício da sua profissão, à qual se entregou a tempo inteiro, soube dar corpo e expressão à defesa e salvaguarda dos nossos interesses”.

Pois é isto que nos define, a nós diplomatas, que não somos “eunucos políticos” e, por isso, assumimos frontalmente as nossas opções neste domínio, mas que temos essencialmente um dever irrevogável de defesa dos interesses de Portugal, seja qual for o governo (com legitimidade democrática e constitucional, entenda-se) que dirija a política externa portuguesa.

Finalmente, e com a mesma contenção com que este livro aborda a vida pessoal do seu autor, uma palavra de admiração e respeito pela delicadeza e elegância com que Marcello Duarte Mathias aborda, e não evita, a dolorosa realidade das demências.

MARCELLO DUARTE MATHIAS, Intervalo, diário 2024 - 2025, seguido de A Memória dos Outros III, ensaios e crónicas (Lisboa, Dom Quixote, junho de 2026)

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