Manuel Alberto Valente. Um livro maior

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O título deste livro é um irónico, ou melancólico, talvez uma falsa pista, uma vez que, se lido no seu todo, induz o leitor ingénuo a uma leitura equívoca. É que nem o menino que vê os comboios será o poeta na sua matura idade, entrado já no dito inverno da vida, nem os poemas são “poesia menor”, como o subtítulo informa.

Manuel Alberto Valente, editor de reconhecidos méritos, poeta e cronista, além de amante diligente dos livros, oferece-nos aqui, neste singelo e quase frágil livro, belíssimo exemplar (mais um!) da editora de Jorge Réis-Sá, a Glaciar, uma espécie de viagem a vários tempos da sua escrita e, como referiu Filipa Leal no lançamento destes poemas, é num comboio pejado de poesia e de poetas que Manuel Alberto leu e conheceu, que empreendemos uma viagem ao que importa: aos textos e o seu fazer pelas mãos de um autor que cultiva a “humilitas” como valor poético.

Isto não é de menos: Maria Zambrano, num livro que José Bento traduziu há 20 anos, considerava ser esse o caminho único para uma poesia viável e humana. Poesia da humildade? Sim. Porque Manuel Alberto mergulha no húmus da sua genesíaca terra de poesia e, no mesmo lance, lembra Ruy Belo: escrever sem querer nenhuma palavra levante por demais a cabeça. Isto é: uma poesia que, desde os anos 60, se quis menor porque feita a partir de uma concepção maior – poesia de observação das outras poéticas e, por isso mesmo, poesia em cuja voz vêm desaguar outras.

Com efeito, de entre os muitos ecos e vozes de que se faz este pequeno e portável livro, conviria ver quatro influências que Manuel Alberto assume e com as quais, no limite, dialoga: Fernando Assis Pacheco, David Mourão-Ferreira, mas também Pessoa e certo Eduardo Guerra Carneiro.

Do autor de Cuidar dos Vivos, Manuel Alberto Valente retira o tom humorístico, o verso bem calibrado no ritmo, de tom oral, ora nostálgico, ora divertido no modo como uma sábia auto-ironia se constrói ou uma sageza de análise do humano se concretiza em homenagem (“Caríssimo Fernando onde é que te meteste?/ Dizem que morreste, mas eu não acredito (...) // E agora, porra, que há-de ser de nós?/ Quem nos dirá de livros e de vinhos?/ Os teus irmãos de Ourense estão mais sós/ e nós Benitos Pradas ficamos sem caminhos”).

Na verdade, está poesia nasce também da sabedoria versificatória. As homenagens a familiares ou gente da Literatura são outro modo de adequar o ritmo do decassílabo ou do alexandrino, da redondilha ou do verso livre a estados de alma que pedem esta ou aquela respiração. Falei de David, tendo já referido Assis Pacheco. Mas de David absorveu Manuel Alberto outra dicção, mais tendente à melancolia. Por exemplo o breve e lapidar poema a Nuno Júdice (“Brotaram rios / da tua lira de líquen // Nenhuma tempestade apagará/ as palavras que nos rasgaram por dentro.” É a consciência de que “in every poem a epitaph”, como quis Eliot, ou a ideia de poema como inscrição tumular, o que, porventura nas secções “Retratos”, “Álbum de Família” e na secção magistral de quatro sonetos e que dá título ao livro, anima o poder da evocação. Neste particular têm especial relevância poemas onde Manuel Alberto prova ser um extraordinário fazedor de medidas clássicas.

Num tempo poético marcado por narrativismos vários e prosaicos, o que aqui lemos atinge alta temperatura porque aos ritmos sobrevêm imagens de grande sugestão. Os sonetos “Mãe, onde estás, que tenho medo”, “Nasci numa casa rodeada” são modelares na restauração dessa forma inventada por Giácomo de Lentini. Saber rítmico, métrico, rimático: “Nasci numa casa rodeada / de comboios. Eu não sabia / que a circulação estava parada/ e em mim era o futuro que corria.”

E se tivermos atenção ao livro que se faz de sete andamentos com uma coda final, é a ideia de álbum (à maneira romântica) que igualmente justifica a prosa coloquial de certos poemas, nos quais Valente abandona o ritmo regular, de decassílabo, para escolher a familiaridade íntima. “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos” é diatribe e consciência do tempo. Mas é uma fotografia confidencial, com o olhar do poeta fazendo zoom em certos pormenores (“hoje quando acordo basta-me sentir o teu pé/ para ser de novo o menino / que lia o Cavaleiro Andante”).

Este livro é belo por isso, que na poesia é mais difícil: falar do simples por meio de um manipular verbal que nos atinge. A lembrança obedece ao deambular da observação das casas, ou da casa de memórias que o sujeito é. A observação do passado (o avô, a avó, os pais, dedicatários do livro, filhos e netos). Mas é um álbum de ficções verdadeiras, de palavras pensadas e sentidas para nos fazerem sentir. Pensar.

Lápides, homenagens, também cafés, conversas, a história de Pedro e Inês, e os lugares do lume: o Porto, Pontevedra, ou os lugares do amor (Maria do Rosário, aqui emblema e presença). Raul Solnado fazendo sorrir um deus triste, um cumprimento a Perez-Reverte, ou versos, imagens vindos de Cesário Verde, este belo livro é, no fundo, uma arte poética. Que sirva de exemplo o magistral soneto a evocar essa epopeia negra que é o poema de Cesário de 1880. Manuel Alberto Valente, pertinaz observador, responde-lhe num poema que raras vezes tenho visto. Não o digo senão por constatar o óbvio.

Não é esta colectânea de poemas vindos de outras eras, alguns já publicados noutras circunstâncias, uma poesia menor. É uma poesia maior, de grande saber de oficina. Leia-se: “Nas nossas ruas ao cair da noite / vêem-se pobres a pedir cigarros / e gente que não tem onde se açoite / senão em vielas onde não passam carros // E há os emigrantes que procuram / uma casa a que possam chamar sua / e luzes que se acendam e perduram / até que reste só a luz da lua // Nas nossas ruas ao cair da noite / por mais que caminhe e que me afoite / pelos destroços perdidos dos impérios// só encontro pedintes e lixeiras / e o rasto perfumado das maneiras / onde se escondem todos os mistérios.”

Podia continuar. Há poemas que ficam na memória. Isso é de grande poesia. De facto, “estendemos a nossa vida sobre a mesa / a toalha onde se envolve a solidão.” A poesia, disse-o Maria Zambrano, é a defesa da própria solidão de quem, escrevendo, sabe que tudo existe aí: nessa solidão feita palavra. Manuel Alberto Valente tem, neste seu cálido e terno livro, a prova de uma arte jamais menor porque nascida da solidão que se defende. É a sua (bio)gráfica vida de poeta o que lemos? Seja. Mas é outra coisa ainda: homenagem à Literatura. Um exemplo mais: Eduardo Guerra Carneiro, pela mão de Manuel Alberto, tal como outros poetas que certa crítica disse serem menores, revivem. Maiores. E tal gesto encerra outro dado inescapável: este menino que via passar os comboios, sempre viu que dentro deles, como imagens que podem fixar-se na retina, estão os mestres da poesia.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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