“Machoesfera”: a violência amplificada, que vende e nos governa

Ana Jacinto

Secretária-geral da AHRESP

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Os dados mais recentes ajudam a dimensionar a gravidade do fenómeno. Um estudo global da Ipsos, em parceria com o King’s College de Londres, realizado em 29 países e divulgado no âmbito do Dia Internacional da Mulher, revela um dado particularmente inquietante: 31% dos homens da Geração Z concordam que “a esposa deve sempre obedecer ao marido”, contrastando com 13% dos homens com 60 anos ou mais. Esta inversão geracional, que desafia expectativas de progressão civilizacional, expõe uma contradição profunda: jovens que afirmam valorizar mulheres com carreiras de sucesso simultaneamente defendem modelos relacionais assentes na subordinação feminina.

Esta dissonância não é acidental. Ela traduz uma lógica social persistente: a igualdade é tolerada enquanto não ameaça a hierarquia tradicional. Pretende-se a mulher competente, mas não autónoma; visível, desde que não desafie a hierarquia; brilhante, desde que não dispute o poder. A retórica meritocrática convive, assim, com a reafirmação de papéis de género arcaicos.

O espaço digital tem desempenhado um papel determinante na reconfiguração desta misoginia contemporânea. O documentário Inside the Manosphere, de Louis Theroux, expõe uma economia da provocação dirigida, sobretudo, a adolescentes e jovens adultos: um ecossistema onde a violência verbal, a humilhação das mulheres, a ostentação material e o culto da força funcionam como mecanismos de recrutamento. Não se trata apenas de discurso – trata-se de um modelo de negócio altamente lucrativo. A misoginia converte-se em produto; a atenção, em capital; o choque, em influência monetizável.

Apesar dos avanços no discurso público sobre igualdade de género, liderança feminina e direitos conquistados, muitos desses progressos permanecem frágeis e ficam apenas no tal domínio do discurso político. A misoginia não desapareceu – reconfigurou-se, modernizou-se e ampliou a sua capacidade de difusão. Dispõe hoje de novos protagonistas, novas linguagens e uma eficácia inédita na captação de públicos jovens.

As causas são multifatoriais. Estudos recentes apontam para sentimentos de frustração, insegurança e desorientação entre jovens homens, que percecionam o seu lugar social e económico como mais instável. Neste contexto, procuram modelos de masculinidade que prometem controlo, autoridade e identidade – ainda que à custa da dignidade alheia.

Infelizmente continuamos a ouvir e a ler mensagens que não são inofensivas. Elas desvalorizam as mulheres no espaço público, normalizam desigualdades salariais, fragilizam a liderança feminina e reinstalam dúvidas sobre o seu lugar no poder. A igualdade não é apenas uma exigência ética; é uma condição de inteligência económica e de qualidade democrática. Está amplamente demonstrado que equipas diversas decidem melhor, inovam mais e criam maior valor. Ao permitir que estes discursos empurrem novamente as mulheres para a margem, desperdiçamos talento, reduzimos competitividade e enfraquecemos a sociedade.

A discussão, por isso, não pode limitar-se à indignação episódica. Trata-se de um tema de educação, cidadania, economia e democracia. Exige ocupar o espaço público com novas referências - mulheres líderes, certamente, mas também homens que rejeitem a caricatura tóxica da masculinidade performativa.

A questão que permanece é simples e urgente: quem está disposto a assumir essa responsabilidade coletiva.

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