O jornal digital Eco promoveu recentemente uma conferência dedicada a uma pergunta essencial: o que quer, afinal, a chamada Geração Z? O encontro, conduzido pelo experiente jornalista Tiago Freire, foi inovador no conceito e no formato. Mais do que falar sobre os jovens, permitiu escutá-los, as suas expectativas, sonhos e preocupações. Algumas dezenas de jovens profissionais, vindos de várias empresas de topo, tiveram espaço para dizer, sem filtros, o que procuram no trabalho e no país.Segundo a peça do Eco, estes jovens querem “participar, experimentar, errar, propor e sentir que o contributo individual não fica bloqueado por estruturas demasiado lentas, hierarquias rígidas ou lideranças pouco disponíveis para ouvir”. E acrescenta: “A Geração Z não rejeita hierarquias, mas contesta lideranças distantes, pouco transparentes ou avessas ao contraditório. O impulso para questionar, tantas vezes lido como impaciência ou irreverência, foi apresentado ao longo da conversa menos como um traço de insubordinação e mais como uma exigência de clareza, de contexto e de participação. Ficar demasiado tempo no mesmo lugar, sem autonomia, nem evolução visível, tende a ser interpretado não como estabilidade, mas como estagnação.”.Há também uma mudança de paradigma: os jovens não querem “prescindir do presente em prol de um futuro”. Querem “crescer e ganhar mais ao mesmo tempo que há uma recusa em sacrificar tudo o resto para o conseguir (...). A Geração Z quer progredir, mas sem prescindir do presente.”O resultado deste encontro merece uma reflexão profunda, sobretudo por parte de quem dirige empresas e organizações. A nova geração não quer repetir os erros dos seus pais e avós, que em muitos casos sacrificaram a saúde e a vida familiar em troca de carreiras profissionais em empresas que mais tarde os descartaram. A nova geração quer conciliar o bem-estar pessoal e familiar com uma carreira profissional, mas já não pensa em empregos para a vida. Quer oportunidades reais para crescer e evoluir, em organizações que os ouçam, valorizem e respeitem. E, convém dizê-lo, o mercado de trabalho joga hoje a favor deles, porque o talento escasseia.Há muito de justo e equilibrado nestas reivindicações. A exigência de participação, de transparência e de evolução não é capricho, é maturidade.Mas há um ponto menos positivo que importa discutir. Entre tantas declarações sensatas, emerge um aspeto preocupante: o discurso centrado exclusivamente no “eu”. Eu quero, eu preciso, eu exijo. E, se o país não me dá aquilo que eu exijo, eu vou-me embora. A anáfora do eu é, claro, intencional.."Há muito de justo e equilibrado nas reivindicações dos jovens. A exigência de participação, de transparência e de evolução não é capricho, é maturidade. Mas há também um discurso demasiado centrado no ‘eu’.”.Esta lógica é falaciosa. Se esta é, de facto, a geração mais bem preparada de sempre, é porque alguém pagou essa preparação: as famílias, os contribuintes, todos os que trabalham e sustentam o sistema educativo e social. O país não é uma entidade abstrata. É o conjunto das pessoas que aqui vivem, trabalham e pagam impostos. O país não deve mais aos jovens do que a qualquer outra pessoa.Parece esquecida a frase de John F. Kennedy: “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas sim o que podes fazer pelo teu país.”A Geração Z tem razão em muito do que reivindica. Mas terá de acrescentar a esta lista uma pergunta essencial: o que está disposta a dar ao país que lhe deu tanto? E por “dar” entenda-se servir, em vez de procurar ser servido.