O escrito anterior causou incómodo. Zangaram-se liberais e neoliberais pela acusação de embuste à sua narrativa sobre literacia financeira.Da líder partidária da Iniciativa Liberal até um chico-esperto financeiramente literado que usou fundos comunitários para montar um alojamento local num centro histórico patrimonialmente classificado pela UNESCO, alguma gente atacou mesmo o texto com virulência.Além de já expectáveis exercícios de raivoso anticomunismo, há, nas várias expressões de fel, um denominador comum: todos fizeram de conta não terem lido a conclusão do escrito para lhe atribuírem, afinal, o sentido exactamente oposto.Sentiram-se expostos? Sentiram os seus objectivos ameaçados? Contavam impor um pensamento único sobre a matéria e lidam mal com a diferença de opinião? Não encontraram resposta intelectualmente honesta e politicamente capaz que pudessem dar-lhe?Seja qual for a razão que mais tenha pesado na circunstância individual de cada um, aqui se repete a conclusão do texto para dela agora se partir: “Os povos precisam, sim, de literacia financeira. Mas é para correr com as políticas neoliberais”.No escrito de hoje troca-se a ordem dos factores para sublinhar uma sequência daquela conclusão.Pode, à primeira vista, parecer que se brinca com uma espécie de propriedade comutativa da relação entre políticas neoliberais e iliteracia financeira, face ao embuste que produzem como resultado.Que essa relação entre os factores existe, existe. E nem sequer é novidade. Mas ela não é nenhuma brincadeira porque o embuste que dela resulta tem sempre graves consequências económicas ou financeiras para as quais são arrastadas pessoas individualmente consideradas ou países e comunidades inteiras.As “letras pequenas dos contratos”, a utilização de conceitos económicos ou financeiros tecnicamente encriptados, a ocultação de relações económicas ou financeiras, a dissimulação de práticas especulativas, a falsificação de elementos que servem de base à tomada de decisões com relevantes impactos económicos e financeiros não são obra do acaso nem problemas exclusivos dos dias de hoje.São fenómenos intrínsecos às dinâmicas das economias liberalizadas. São realidades e práticas enquadradas e promovidas pelas políticas neoliberais. São parte da literacia neoliberal e contam com a iliteracia financeira para subsistir.Por isso soam a falso as proclamações em defesa da literacia financeira de quem defende as políticas liberais e neoliberais que estão na origem de escândalos como a falência do BPN, a crise do “subprime”, os Panama Papers, a falência do BES/GES – apenas citando alguns casos mais sonantes dos últimos 20 anos.É falsa a preocupação dos liberais e neoliberais com o povo e a iliteracia financeira. Sabem bem que sem essa iliteracia não teriam como sustentar as suas políticas.Os povos precisam de correr com a literacia neoliberal para evitarem (mais) embustes financeiros.