Lisboa tem no Tejo o seu maior ativo natural e cultural, mas continua longe de o integrar plenamente na vida da cidade. Poucas capitais europeias estabeleceram uma relação tão profunda com o seu rio. Tal como Paris com o Sena ou Budapeste com o Danúbio, Lisboa cresceu, abriu-se ao mundo e construiu a sua identidade a partir do Tejo. Desde cedo, o estuário amplo e seguro tornou Lisboa um porto natural procurado por fenícios, romanos e árabes. Séculos depois, durante os Descobrimentos, o Tejo tornou-se lugar de partida para viagens que projetaram o país e consolidaram Lisboa como centro comercial de escala global.O rio moldou bairros, rotas e grandes infraestruturas, das antigas docas, às pontes que hoje definem a paisagem urbana. E permanece um ecossistema de enorme valor ambiental, protegido e reconhecido como um dos mais importantes da Europa.Na cultura, surge como imagem de despedida, saudade e contemplação, presente na literatura, no fado e na memória coletiva da cidade.Apesar dessa herança, Lisboa vive há décadas um paradoxo: a sua frente ribeirinha não está plenamente ao serviço da cidade. Dos cerca de 19 quilómetros que se estendem entre Algés e o Parque das Nações, uma parte significativa esteve durante décadas ocupada por infraestruturas portuárias, muitos espaços desativados ou subutilizados, criando barreiras físicas e visuais entre os lisboetas e o rio. Embora projetos recentes, como o Parque das Nações ou a Ribeira das Naus, tenham devolvido áreas importantes ao uso público, subsistem troços ainda inacessíveis ou condicionados.Reaproximar Lisboa do Tejo é hoje um desafio estratégico. A qualidade do espaço público, a mobilidade suave, a resiliência ambiental e a capacidade de oferecer uma cidade mais aberta, vívida e sustentável dependem dessa reconexão. O turismo, que representa uma fatia relevante da economia local, também se apoia na valorização deste património único.É fundamental que a Câmara Municipal de Lisboa coloque a recuperação da frente ribeirinha como prioridade, promovendo um diálogo construtivo com o Governo e com a Administração do Porto de Lisboa. Este objetivo deve estar acima de disputas partidárias, exigindo cooperação institucional para devolver mais áreas ribeirinhas ao uso público e ao benefício da cidade.O Partido Socialista em Lisboa acompanhará qualquer iniciativa séria que permita devolver mais frente ribeirinha, porque considera que os ganhos ultrapassam ciclos políticos e beneficiam moradores, visitantes e gerações futuras. Carlos Moedas pode ficar com os louros, desde que os lisboetas tenham o seu rio de volta. Afinal Lisboa sempre viveu voltada para o Tejo. Falta apenas tornar essa relação mais plena e acessível, devolvendo o rio à cidade e a cidade ao seu rio.