Lições de uma lagosta

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A metáfora da lagosta, tornada famosa pelo rabi Abraham Twerski, ensina-nos lições valiosas a muitos níveis. Numa síntese rápida, o estudioso norte-americano nota que o crescimento da lagosta, um crustáceo de corpo mole e frágil protegido por um exoesqueleto, a carapaça, apenas se dá quando o animal sente desconforto face à casca demasiado apertada. É nessa altura, conta, que a lagosta se protege dos predadores debaixo de rochas, solta a casca antiga e espera que a nova carapaça, maior e capaz de albergar o corpo que cresceu, se solidifique.

Abraham Twerski chega a brincar com a ideia de que se a lagosta pudesse ir ao médico quando o desconforto começa, este lhe passaria um Valium ou um Percocet e nunca haveria dor. Logo, nunca haveria crescimento.

É uma lição poderosa: tempos de stress são sinais para o crescimento. Se soubermos enfrentar a adversidade corretamente, aceitando-a com determinação, podemos crescer através da “dor” em vez de apenas tentar afastar os sintomas de desconforto.

A outra lição é que a lagosta, um animal que não raras vezes consegue chegar aos cem anos, tem de mudar de casca, ciclicamente, até ao fim da sua vida. Um sinal de que o desconforto da mudança é não só passageiro, como essencial. Mas também é cíclico.

EPA / Aaron Schwartz
"A sucessão de declarações disruptivas, tensões geopolíticas e choques políticos deixou de surpreender verdadeiramente os agentes económicos.”

As empresas e os governos e as instituições europeias têm sentido um enorme desconforto, nos últimos anos, com a incerteza geopolítica mundial. A uma guerra cruel às suas portas, na Ucrânia, desde há quase quatro anos, juntou-se uma guerra comercial e tarifária lançada por um presidente dos EUA que está disposto - caso veja nisso qualquer pequena vantagem - a quebrar todas as antigas alianças e a Ordem Mundial dos últimos 80 anos. Foi o que se viu na questão da Gronelândia e o sequestro do presidente da Venezuela para tomar a indústria petrolífera local. Veremos como evolui agora a situação de Cuba, que está a piorar a cada dia.

Apesar de lenta na reação e burocrática no processo de decisão, a Europa deu passos para mudar de carapaça - está a armar-se, produzindo mais e melhor equipamento - e as suas empresas, depois do primeiro embate, acabaram por se adaptar “ao ambiente de incerteza constante”. Numa apresentação, em Paris, da Coface, a multinacional líder mundial em seguros de crédito considerou que “o ano de 2025 foi muito mais tranquilo do que a turbulência política e a guerra tarifária faziam antever”. E especialistas da empresa, como Ruben Nizard e Bruno de Moura Fernandes, dizem que “há setores que estão agora em condições melhores para continuar a crescer”.

Ou como disse o gestor António Ramalho, no recente Fórum Atlântico Futuro: “O mundo está com um nível de incerteza muito menor do que aquilo que nós poderíamos pensar”, que é “previsível na sua imprevisibilidade”. Os números dão corpo a isso: depois da quase estagnação na União Europeia em 2023 (com um crescimento de 0,4%), o bloco cresceu 1,0% em 2024, estando previsto um crescimento de 1,6% no ano passado. O PIB mundial cresceu 3% em 2023, 2024 e 2025 (estimado) e os índices acionistas acumularam valorizações relevantes na última década.

Dito de outra forma: a sucessão de declarações disruptivas, tensões geopolíticas e choques políticos deixou de surpreender verdadeiramente os agentes económicos.

Que estes ou quaisquer outros tempos difíceis - Portugal está agora a enfrentar mais um deles, com os estragos causados pela sucessão de tempestades - sejam sempre encarados como um desafio à nossa capacidade de adaptação ao desconforto. E que sejam um testemunho da nossa determinação.

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