Liderar a IA sem perder a humanidade

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Numa reunião de administração alguém apresenta uma nova solução de Inteligência Artificial. O argumento parece difícil de contrariar: reduz custos, aumenta produtividade, antecipa falhas, automatiza tarefas repetitivas e acelera decisões.

Até que alguém coloca a pergunta que deveria estar no primeiro slide: o que acontece às pessoas?

Não apenas aos empregos. Às pessoas. À sua autonomia, à sua dignidade e à sua capacidade de compreender decisões que passam a ser recomendadas, ou mesmo tomadas, por sistemas sem consciência, sem contexto moral e sem responsabilidade.

A recente encíclica Magnifica Humanitas oferece uma imagem particularmente forte: perante a Revolução Digital, a Humanidade pode escolher entre construir uma nova Torre de Babel ou seguir o caminho de Neemias. Babel representa o poder sem limites, a uniformização e a eficiência desligada da dignidade. Neemias representa a reconstrução paciente e partilhada de uma cidade, onde cada um tem uma parte da muralha a erguer. A encíclica recorda que a tecnologia pode “curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum”, mas também pode “dividir, descartar, gerar novas injustiças”.

É aqui que a liderança se torna decisiva.

O líder do futuro não será apenas aquele que adota Inteligência Artificial mais depressa. Será aquele que sabe perguntar melhor antes de a aplicar. Porque uma empresa pode tornar-se mais eficiente e, ao mesmo tempo, menos humana. Pode automatizar processos e desresponsabilizar decisões. Pode medir desempenho e esquecer contexto. Pode avaliar trabalhadores, selecionar candidatos, classificar clientes e gerir riscos sem nunca perguntar se está a construir confiança ou apenas controlo.

A IA pode ajudar uma fábrica a prever uma avaria antes de ela acontecer, reduzir desperdício energético ou melhorar a segurança de uma linha de produção. Pode apoiar médicos, professores, gestores e equipas operacionais. Mas também pode vigiar em excesso, excluir sem explicação, reproduzir preconceitos antigos com aparência moderna e transformar pessoas em simples pontos de dados.

A diferença não está apenas na ferramenta. Está na cultura de liderança que a orienta.

Por isso, as empresas precisam de um Teste de Humanismo para a IA antes de qualquer implementação relevante. Não como mais uma burocracia, mas como disciplina de boa gestão.

Cinco perguntas deveriam tornar-se obrigatórias: esta tecnologia aumenta ou diminui a dignidade das pessoas? Quem pode ser prejudicado por este sistema? Existe explicação, contestação e revisão humana? Os ganhos de produtividade serão acompanhados por formação e requalificação? Estamos a usar IA para desenvolver pessoas ou apenas para as controlar?

Este teste não deve ficar fechado no departamento informático, jurídico ou de compliance. Deve envolver administração, recursos humanos, operações, trabalhadores, clientes e sustentabilidade. Tal como as empresas avaliam impacto financeiro, regulatório ou ambiental, deverão começar a avaliar o impacto humano dos sistemas de Inteligência Artificial.

Cada empresa deveria criar “um pequeno” Conselho de Impacto Humano da IA para avaliar as aplicações mais sensíveis. Não para travar a inovação, mas para a tornar mais confiável. A pergunta central seria simples: esta tecnologia torna-nos apenas mais rápidos ou torna-nos também melhores?

Portugal tem aqui uma oportunidade. Não seremos, provavelmente, os maiores produtores de tecnologia do mundo. Mas podemos ser referência na aplicação humanista da IA: na indústria, na Saúde, na Educação, na energia, na Administração Pública e nas PME. Uma IA que aumente produtividade a pensar nas pessoas. Uma IA que ajude a competir sem destruir confiança.

O maior risco talvez não seja a máquina tornar-se humana. É o ser humano aceitar tornar-se máquina: avaliado apenas por desempenho, medido apenas por dados e descartado quando deixa de ser útil.

Precisamos de IA nas empresas. Mas precisamos ainda mais de líderes com consciência. Uma civilização que ganha eficiência, mas perde humanidade não está a inovar. Está apenas a construir, com tecnologia de ponta, a sua própria Torre de Babel.

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