Licença para matar?

Jaime Nogueira Pinto

Politólogo e escritor

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Caso Cole Thomas Allen tivesse tido sucesso no passado dia 25 de Abril, “o dia mais bonito do nosso país” (na expressão de uma influencer) ia ter um perigoso rival americano no calendário festivo. Entre pôr fim à “longa noite salazarista” num pequeno país da Europa Ocidental e varrer da face da terra o “nazi-fascista” americano Donald Trump, o coração dos democratas lusos balançaria… ou explodiria de alegria, ao ver concentrados num mesmo dia 25 “o dia mais bonito do nosso país” e “o dia mais bonito do mundo”.

Ann Coulter, no American Conservative de 30 de Abril, lembra que Trump já foi definido como “fascista” por Kamala Harris, Tim Walz, Elisabeth Warren, senadores e congressistas democratas sortidos e ex-colaboradores seus na Casa Branca; e como “nazi” pela sua adversária de 2016, Hillary Clinton, pelo ex-Presidente Joe Biden e por variadíssimos órgãos de opinião considerados fiáveis, precisos e responsáveis, como o New York Times e o The Guardian. E todos os acima mencionados, a que se juntam Bernie Sanders, Nancy Pelosi, Alexandria Ocasio-Cortez e uma legião de editorialistas e comentadores, também já o classificaram como “racista”.

Não se percebe, pois, a admiração geral perante o facto de Cole Tomas Allen, o último candidato a assassino de Trump no jantar da White House Correpondent’s Association, ser um americano tranquilo e até um bom cristão: como resistir ao apelo de livrar a América e a Humanidade de um fascista, de um nazi, de um racista, de um tirano?

Allen é um professor de 31 anos, com um mestrado em ciência dos computadores pela Universidade Estadual da Califórnia. “Bom estudante, educado, excelente pessoa”, Allen chegou mesmo a dar 25 dólares para a campanha de Kamala Harris em 2024. Minutos antes de tentar o magnicídio deixou um manifesto à família: “Não vou permitir por mais tempo que um pedófilo, um violador e um traidor manche as minhas mãos com os seus crimes.” E evocava a sua condição de cidadão norte-americano e de cristão e a consequente responsabilidade de repor o Bem e a Justiça. Se fosse ele o ofendido, até oferecia a outra face, como manda o Evangelho, mas sendo os outros as vítimas ...

Foi este bom rapaz, cristão, engenheiro, cientista, que se candidatou a livrar a América e a Humanidade de Trump. A culpa é do “discurso de ódio”, dizem. Do “discurso de ódio” de Donald Trump e da extrema-direita, evidentemente, que à Esquerda não há discurso de ódio, só análises ponderadas e isentas e repetidos alertas para factos insofismáveis – como o comprovado fascismo, o indiscutível nazismo, o evidente racismo, a atestada pedofilia e a intrínseca malvadez do Presidente dos Estados Unidos.

Como é que uma série de “análises ponderadas e isentas”, ainda que marteladas em milhões de mensagens diariamente emitidas para dezenas de milhões de receptores, pode equivaler a uma “licença para matar”?

Impossível. É antes o discurso de ódio da extrema-direita fascista, nazi, racista, que é insidioso e perturbador, tanto para os mais fanáticos e limitados, como para os bons rapazes, como Allen, que só querem um mundo melhor.

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