Há uma inquietação que atravessa o nosso tempo e que dificilmente pode ser ignorada. Independentemente da posição ideológica de cada um, cresce entre os cidadãos a percepção de que a política deixou de ser, para demasiados dos seus protagonistas, um exercício de serviço público para se transformar, não raras vezes, numa disputa pelo poder, pela influência ou pela sobrevivência partidária.Esta percepção pode revelar-se justa ou injusta em muitos casos concretos, cabendo aos tribunais e às instituições apurar responsabilidades quando elas existem. Mas a percepção, por si só, já constitui um problema político. Porque a confiança é a matéria-prima da democracia, e nenhuma democracia floresce quando os cidadãos deixam de acreditar na integridade daqueles que os governam.Talvez por isso valha a pena regressar aos autores que pensaram a política antes de ela se tornar profissão, carreira ou espectáculo. Ler Platão e Aristóteles não é um exercício de arqueologia intelectual; é um acto de cidadania. Em A República, Platão não descreve apenas uma cidade ideal. Questiona, sobretudo, que tipo de homem deve governar. O poder não deveria ser entregue ao mais ambicioso, ao mais popular ou ao mais eloquente, mas àquele que tivesse aprendido a dominar-se a si próprio. A Justiça da cidade dependia da justiça da alma. A desordem política era, antes de mais, uma consequência da desordem moral.É difícil não reconhecer a actualidade desta intuição. As sociedades modernas aperfeiçoaram os mecanismos institucionais, criaram sistemas de fiscalização, multiplicaram órgãos independentes e desenvolveram sofisticados instrumentos de controlo democrático. Tudo isso é indispensável. Contudo, nenhuma arquitectura institucional consegue substituir a virtude pessoal. As leis limitam comportamentos; não formam o carácter.É precisamente aqui que Aristóteles oferece um complemento decisivo. Na Ética a Nicómaco, afirma que a virtude não nasce espontaneamente, mas do hábito. Aprende-se a ser justo praticando a justiça, aprende-se a ser prudente exercendo a prudência, aprende-se a governar servindo o bem comum. A política, para Aristóteles, não era uma técnica de conquista do poder; era a ciência suprema porque tinha como finalidade criar as condições para uma vida boa da comunidade. Que contraste com um tempo em que tantas vezes o debate público parece reduzir-se à gestão da imagem, à eficácia comunicacional ou à contabilidade eleitoral! Discute-se quem venceu o ciclo mediático, quem ganhou pontos nas sondagens ou quem dominou as redes sociais. Discute-se muito menos se determinada decisão tornou efectivamente melhor a vida dos cidadãos.Nem Platão, nem Aristóteles ignoravam os riscos do poder. Pelo contrário, conheciam-nos profundamente. Sabiam que o poder seduz, que corrompe quando não encontra limites interiores e que a ambição, quando desligada da virtude, conduz inevitavelmente à degradação da comunidade política. Talvez por isso ambos insistam tanto na formação moral dos governantes. Antes de administrar recursos, é necessário aprender a administrar a própria consciência.Não deixa de ser curioso que, numa época em que se exige aos titulares de cargos públicos uma preparação técnica cada vez mais sofisticada, se fale tão pouco da sua formação ética. Exigem-se competências em economia, direito, finanças ou comunicação. Tudo isso é importante. Mas quem reflecte seriamente sobre a prudência, a justiça, a temperança ou a responsabilidade? Quem estuda os dilemas morais do exercício do poder antes de o exercer?A leitura dos clássicos não oferece receitas para os problemas contemporâneos. Não ensina a elaborar um Orçamento do Estado, nem resolve crises internacionais. O que oferece é algo talvez mais importante: critérios. Ensina a distinguir entre interesse e bem comum, entre popularidade e legitimidade, entre sucesso político e excelência moral. Recorda-nos que a autoridade não decorre apenas da legalidade do mandato, mas também da qualidade ética de quem o exerce.Portugal, como qualquer democracia madura, não necessita de governantes perfeitos. Precisa, isso sim, de responsáveis públicos conscientes de que a política é uma forma elevada de serviço. E precisa igualmente de cidadãos capazes de exigir esse padrão. Porque uma democracia não se degrada apenas quando surgem maus governantes; degrada-se também quando a sociedade deixa de esperar deles um comportamento exemplar.Num tempo marcado pela velocidade, pela polarização e pela suspeita permanente, talvez o gesto mais revolucionário seja abrir um livro escrito há mais de dois mil anos. Platão e Aristóteles continuam a lembrar-nos de que a política não começa nas campanhas eleitorais, nem termina nas urnas. Começa muito antes: na educação do carácter.Talvez seja essa a grande lição que os clássicos ainda têm para oferecer ao século XXI. Antes de perguntarmos quem queremos eleger, deveríamos voltar a perguntar que tipo de pessoas desejamos que cheguem ao poder. Porque, no fim de contas, a qualidade da política continuará sempre a depender, em larga medida, da qualidade moral dos políticos e da exigência ética dos cidadãos que os escolhem. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico