Leitura: uma aposta séria

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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O Plano Nacional de Leitura deve ser desenvolvido e praticado, para além das boas intenções. Ler é mais do que um prazer ou uma necessidade; é também um dever. Impõe-se conhecer melhor a nossa cultura e as culturas com que nos relacionamos. A leitura corresponde à vida e à compreensão de que não podemos existir sem uma relação estável com a lembrança das raízes e com a existência dos outros.

Quando lemos um texto clássico, com vários séculos, estamos a transpor a barreira do tempo. De facto, podemos conhecer melhor Aristóteles do que os nossos vizinhos de prédio ou de bairro. Mas ao falar da língua, da leitura e da literatura não só estamos a evocar a memória de quem nos antecedeu, como dialogamos com as grandes personagens e os símbolos, como Jacinto, Zé Fernandes, Carlos ou Maria Eduarda, Joaninha dos Olhos Verdes, Simão Botelho e Teresa, mas também Natacha, o conde Pedro Bezukhov ou os dialogantes da Montanha Mágica, e simultaneamente estamos a dialogar com as pessoas comuns da sociedade com quem vivemos.

A língua e o pensamento são realidades vivas que não param de evoluir. A sociedade e as pessoas que a constituem fazem parte desse movimento incessante a que não podemos ser indiferentes. E que é a leitura senão a demonstração do nosso interesse pelo mundo e pelos outros?

Pessoalmente, o livro atrai-me quer como objeto físico (o volume, a capa, a textura, a cor, o cheiro), quer pelo manancial de reflexão e de experiência. O livro não nos deixa indiferentes, nem permite estarmos sós, levando-nos a viajar, como Garrett nos convidava, a partir do nosso quarto, mas também a comunicar melhor com os outros, não como questão de gramáticos, mas como exigência de cidadãos.

Há mil atividades que concorrem com a leitura, mas a verdade é que a aprendizagem é o grande desafio que distingue a sabedoria da ignorância. Como afirma Regina Duarte, até há pouco Comissária do Plano Nacional de Leitura: “Temos de trabalhar na promoção da leitura a todos os níveis. Em casa os pais leem menos com os filhos. Queixam-se de que o miúdos não leem, mas eles também não. Ao crescer, uma criança tem de ver os pais a ler e os pais têm de passar o tempo sentados com ela a ler, o que não acontece. (…) O tempo passado a ler em voz alta com os miúdos deve prolongar-se até o mais tarde possível. Isso ajuda a consolidar hábitos de leitura.”

O que está em causa é a essência do conhecimento, que deve ser partilhado. O prazer da leitura é extraordinário. Claudel recordava que a palavra “connaissance” significa nascer com. Eis por que razão o investimento sério na promoção da leitura constitui uma aposta na Educação, na Ciência e na Cultura.

Portugal fez um caminho longo e consistente desde as taxas elevadíssimas de analfabetismo de há apenas meio século, quando no norte da Europa a taxa já era nula, até aos valores atuais respeitantes ao sucesso escolar e à redução das taxas de abandono. Os progressos alcançados pela democracia precisam, porém, de ser aprofundados: precisamos de ler melhor, garantir que mais cidadãos consigam compreender textos simples e avançar na compreensão da importância de aprender a saber, a fazer, a viver com os outros e de aprender a ser.

Também podemos chegar à leitura através das novas tecnologias e aproveitar as potencialidades positivas da chamada Inteligência Artificial, eis um caminho para avançarmos numa sociedade culta e justa, segundo um compromisso humanista.

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