Kusama, para sempre rebelde, artista icónica, diz o seu Adeus

Zeynep Tinaz Redmont

Jornalista turca a viver em Portugal, publica 'Lisbon Diaries' no Substack

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Na sala dos espelhos criada pela artista japonesa Yayoi Kusama, procuramos por nós próprios, mas estamos em todo o lado. Já não temos controlo sobre o infinito que ela criou. De certa forma, ela  faz troça de nós.

Quando morreu em Tóquio, aos 97 anos, só podemos saudar uma mulher que nos deu não apenas coloridas bolinhas, mas também muitas lições de vida.

Com a sua morte, encerrou-se uma era.

No século passado, quando as mulheres muitas vezes não tinham nome, ela imprimiu o seu em letras douradas na história. Apesar de todos os males que a vida lhe trouxe, escolheu ser uma mulher que lutou e resistiu. No fim, o seu adeus veio de uma mulher vitoriosa.

Quebrou as regras da sociedade, desafiou a política e o mundo da arte dominado pelos homens.

E quem esteve por detrás desta história de vitória? Outra mulher.

Foi o incentivo de outra mulher monumental, Georgia O’Keeffe, que levou Kusama a deixar o Japão e a mudar-se para Nova Iorque em 1957.

Ainda bem para os portugueses: conseguimos ver a sua última exposição no Museu de Serralves, no Porto, em 2024.

Foi avassalador. Mas, tanto quanto a sua arte, a curadoria bem-sucedida proporcionou aos visitantes a história de vida desta mulher única, que é simplesmente inspiradora.

Parte da exposição de Yayoi Kusama, no Museu de Serralves, em 2024, com as suas características bolinhas.
Parte da exposição de Yayoi Kusama, no Museu de Serralves, em 2024, com as suas características bolinhas. FOTO: Direitos Reservados

Além da sua obra, foi também impressionante a sua relação com Georgia O’Keeffe, a quem Kusama escreveu uma carta a pedir conselho. O’Keeffe não deitou a carta no caixote do lixo. Em vez disso, reservou tempo para lhe responder e dizer-lhe: “VAI.”

Assim começou a sua vida em Nova Iorque. Não foi um percurso fácil.

Em 1966, invadiu o jardim da Bienal de Veneza com 1500 pequenas esferas espelhadas e vendeu-as por 2 dólares, sob uma faixa onde se lia “Your Narcissism for Sale”, até ser expulsa pelos funcionários.

Vinte e sete anos mais tarde, regressou à Bienal de Veneza para representar oficialmente o Japão.

A sua carreira foi ensombrada por alguns artistas masculinos populares da sua época, que copiaram o seu trabalho, o seu estilo, as suas esculturas fálicas e as suas performances públicas. A injustiça e a falta de reconhecimento levaram-na a uma tentativa de suicídio.

Em 1973, regressou a Tóquio e alguns anos mais tarde internou-se voluntariamente num hospital psiquiátrico, onde dedicou os seus dias à criação artística.

Se houvesse uma palavra para a definir, além do seu talento artístico, seria “coragem”. Não permitiu que o mundo dominado pelos homens a manchasse.

Nascida numa sociedade patriarcal, sob o domínio de uma mãe abusiva que obrigava a filha a assistir aos encontros amorosos do pai com a sua amante, Kusama aprendeu desde cedo a distinguir o certo do errado.

Foi uma combatente pela liberdade, ativista pela paz e defensora dos Direitos Humanos.

Enfrentou a sua doença mental com coragem e partilhou as suas alucinações com o mundo. As bolinhas que apareciam nas suas visões tornaram-se para sempre as suas famosas bolinhas, que acabaram por colorir as nossas vidas.

Quando deixamos um legado, é este o tipo de legado que devemos deixar.

Kusama disse que não temia a morte, vendo-a como “simplesmente entrar na sala seguinte”. “Viver e morrer são uma e a mesma coisa”, escreveu na sua autobiografia.

Mas para nós, amantes da sua arte, “a morte” não é a mesma coisa, pois deixou-nos sem as suas novas criações.

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