Kohl e Merkel piscaram à esquerda e a AfD agradeceu

As eleições regionais alemãs do passado domingo parecem ter chocado meio mundo. Não há razões objetivas para isso, muito pelo contrário. Este caminho começou há décadas, com opções políticas claras -- que nunca funcionaram na História.
Ricardo Simões Ferreira

Editor Executivo Adjunto do Diário de Notícias e Diretor Executivo do Motor24

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Ouvir Friedrich Merz declarar-se “profundamente chocado” com o terramoto eleitoral da Saxónia-Anhalt é conversa fiada – para satisfazer algum eleitorado e aqueles que emprenham de ouvido com a voz da “autoridade”. Dizer que o eleitorado apenas não compreendeu a virtude das suas reformas e que o governo federal tem de “explicar melhor as suas medidas” é o refúgio habitual da cobardia tecnocrática em negação. Convenhamos: ninguém com um mínimo de lucidez histórica pode ter sido apanhado de surpresa com as eleições deste domingo. Os 43,8% da AfD e o esmagamento da CDU a 17% são o desfecho inevitável de 35 anos de capitulação ideológica da direita alemã, num caminho iniciado por Helmut Kohl.

Konrad Adenauer e Ludwig Erhard compreenderam, nos anos 50, que a liberdade e o rigor económico tinham de preceder a unidade territorial a qualquer custo (Freiheit vor Einheit). A recusa intransigente da armadilha escrita nas Notas de Estaline e a aposta sem concessões no ordoliberalismo – mercado aberto, estabilidade monetária e concorrência estrita – foram capazes de edificar o milagre económico da Alemanha Ocidental (evidentemente, com todo o apoio dos contribuintes dos Estados Unidos que contaram em momentos críticos, é bom nunca esquecer).

Kohl fez exatamente o inverso. Confrontado com a janela histórica de 1989, abordou a reunificação não com a disciplina da oferta, mas com a mais grosseira engenharia keynesiana: impôs uma taxa cambial de 1:1 por mero cálculo eleitoralista. A indústria obsoleta do Leste colapsou da noite para o dia, algo mais ou menos inevitável, mas o que veio em substituição? É que em vez de se transformar a antiga RDA numa zona de investimento dinâmico, fiscalmente desregulamentada e focada na produtividade – como por exemplo fez a Estónia pós-soviética –, Bona optou pela via fácil do paternalismo estatal. Canalizaram-se biliões em transferências sociais e subsídios improdutivos. Na prática, trocou-se a dependência face ao Estado comunista por uma tutela orçamental ocidental permanente.

Os Executivos alemães (todos) ignoraram sempre o dado sociológico e histórico mais evidente: entre 1933 e 1989, a população da Alemanha de Leste viveu 56 anos ininterruptos sob dois regimes totalitários. Foram três gerações sucessivas sem oxigénio cívico, sem instituições mediadoras, sem cultura de risco e sem qualquer hábito de iniciativa privada. Ora não se cria uma democracia liberal de mercado por decreto ou pela distribuição de cheques de compensação. O Leste rural ou mal industrializado que passou de estar debaixo da pata do nazi para ser esmagado pela pata do comunista sem dar muito pela diferença (só mudaram essencialmente sobre quem não podiam falar mal) viu-se a ser tutelado por burocratas ocidentais, mas manteve a mentalidade de dependência. E quando o Estado falhou na entrega da prosperidade prometida, o ressentimento ficou em lume brando.

Coube a Angela Merkel transformar essa fragilidade estrutural num desastre consumado. Durante 16 anos de chancelaria, Merkel (ela própria um produto da região oriental) descaracterizou a CDU, empurrando o partido para um centro-esquerda comodista, apenas para neutralizar a oposição e gerir consensos imediatistas. Abandonou as reformas estruturais da Agenda 2010, destruiu a competitividade energética com o fecho histérico das centrais nucleares e a subserviência ao gás russo e, em 2015, atropelou o bom senso ao escancarar as fronteiras sob o lema moralista do “Wir schaffen das” – “Nós vamos conseguir” superar o desafio colocado à Alemanha pela crise dos refugiados sírios.

Pior do que o erro prático foi o método: Merkel governou sob o dogma asfixiante do Alternativlos (“não há alternativa”). Ao decretar que qualquer divergência face às suas políticas era moralmente ilegítima, a liderança federal amordaçou o debate e extinguiu o espaço conservador democrático. Foi precisamente para contestar essa asfixia que nasceu a Alternative für Deutschland.

A fatura de três décadas de cobardia chegou com juros de mora. Ao insistir no biombo moral do Brandmauer (o cordão sanitário), a CDU converteu-se em refém perpétua de coligações absurdas com a esquerda, confirmando aos olhos do eleitorado a narrativa de que o centrão federal é um bloco único e indiferenciado. Merz prometeu que reduziria a AfD a metade — acabou por reduzir a CDU a metade.

O resultado a Leste não é uma anomalia exótica, nem um mero voto de protesto conjuntural de pessoas antidemocráticas. É a vingança implacável da realidade contra décadas de social-democratização forçada, paternalismo estatista e cobardia ideológica. Kohl e Merkel semearam a ilusão de que o Estado podia comprar a paz social sem economia de mercado. A AfD limitou-se a aproveitar-se do total deserto (económico, social e sufocante) que tais ideias inevitavelmente produzem.

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