Há polémicas culturais que revelam muito mais do que aparentam à primeira vista. A recente proposta de substituir a designação “Língua Portuguesa” por “Língua Geral”, defendida por José Eduardo Agualusa, é um desses casos. Porque a questão já não é apenas linguística: é profundamente simbólica, ideológica e civilizacional.Convém começar pelo essencial: o português chama-se português porque nasceu historicamente em Portugal. Não se trata de uma opinião identitária, nem de uma reivindicação nacionalista; trata-se de um facto histórico elementar. Foi em Portugal que esta língua se formou, se consolidou e se projectou globalmente. O facto de hoje pertencer também ao Brasil, a Angola, Moçambique, Cabo Verde ou Timor-Leste não elimina essa origem, tal como o alcance planetário do inglês não obriga ninguém a renomeá-lo para evitar referências à Inglaterra.Existe actualmente, em certos sectores intelectuais ocidentais, uma tendência preocupante para reinterpretar toda a história através de categorias morais simplistas, divididas entre opressores e oprimidos. Dominantes e dominados. Tiranos e vítimas. Nesse contexto, tudo o que possua raízes históricas europeias parece exigir permanente revisão, desconstrução ou expiação simbólica. A proposta de abandonar a designação “língua portuguesa” inscreve-se claramente nessa lógica de deslegitimação cultural.O problema é que esta obsessão revisionista raramente produz aproximação entre povos. Pelo contrário: tende a alimentar ressentimentos históricos, fragmentações identitárias e antagonismos artificiais entre comunidades que partilham precisamente uma herança comum. Uma língua internacional não se fortalece apagando a sua história; fortalece-se reconhecendo a complexidade dessa mesma história, incluindo as suas contradições.Importa, aliás, recordar que a expressão “Língua Geral” não é neutra nem inocente. Historicamente, designava línguas francas de origem indígena utilizadas no Brasil colonial. Recuperar hoje essa designação para substituir “português” não constitui um simples exercício terminológico: representa uma tentativa deliberada de deslocação simbólica da matriz histórica da língua.Há aqui também uma evidente incoerência intelectual. Durante décadas, foi-nos dito que o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário para preservar a unidade da língua portuguesa. Em nome dessa suposta unidade, sacrificaram-se tradições ortográficas, referências etimológicas e especificidades nacionais. Contudo, alguns daqueles que defenderam essa uniformização parecem agora não ver qualquer problema em questionar o próprio nome histórico da língua. Afinal, a unidade era linguística ou ideológica?Naturalmente, a literatura vive também da provocação. E talvez esta proposta não passe disso mesmo: um gesto literário destinado a gerar debate. Ainda assim, as palavras têm consequências, sobretudo quando partem de figuras públicas com influência cultural significativa. Os escritores possuem liberdade absoluta para questionar heranças históricas, mas têm igualmente responsabilidade intelectual na forma como contribuem (ou não) para a preservação de espaços comuns de entendimento entre povos.O português não necessita de ser renomeado para se tornar mais plural, mais inclusivo ou mais universal. Já o é. É uma das grandes línguas globais precisamente porque soube atravessar séculos, geografias e culturas sem perder continuidade histórica. Negar essa continuidade não representa progresso intelectual; representa, isso sim, uma forma subtil de amputação cultural.Defender o nome da Língua Portuguesa não é defender qualquer nostalgia imperial. É apenas recusar a ideia perigosa de que uma civilização deve pedir desculpa permanentes pela sua própria existência histórica. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico