O sucesso de Graham Greene como grande romancista deveu-se em parte à compreensão de que a literatura corresponde sempre a mais que um divertimento: ora se traduz na reflexão séria sobre o fator humano, ora se baseia nos acontecimentos quotidianos. A separação rígida entre os dois campos tende, porém, a atenuar-se à medida que a realidade se torna surpreendente. John R. Grisham Jr. (1955) é um dos romancistas que melhor tem compreendido esta complementaridade. Advogado de profissão, grande leitor do romance norte-americano, designadamente com John Steinbeck, procura analisar numa obra vasta a sociedade como realidade em conflito, que tende a emancipar-se pela procura da justiça e da verdade. Partindo da vida comum, a cada passo se descobre, que há mistérios e enigmas que perturbam a realidade.
O meu amigo e colega de curso e de liceu Carlos Rayo, foi sempre um leitor insaciável e a literatura não só tem enriquecido o seu conhecimento da realidade humana, como também tem permitido encontrar na lei e na Justiça caminhos para uma sociedade melhor. E o comentário desportivo semanal permite-lhe exercitar o puro divertimento. O “entretenimento” de Greene é, assim, um modo para melhor se compreender a complexa dignidade humana, sendo que a realidade esconde sempre algo de essencial. Autor da ‘Alegre Sereia’, acaba de publicar Urânio - Intriga Internacional no Alentejo (Sopa de Letras, 2026).
A matéria-prima é o interior de Portugal, mais concretamente o Município de Nisa. Num cenário aparentemente plácido, tudo se inicia com a identificação errada de alguém que não se compreende bem que papel desempenha, e que se faz passar por um ator teatral aparentemente desmemoriado.
A protagonista é uma jovem advogada, Natércia Colete, conhecida como Naty, que procura um rumo para a vida e que é contactada por uma sociedade de advogados espanhola que lhe oferece uma oportunidade prometedora, depois de alguns sucessos locais em defesa dos queijos de Nisa. Nélio Barradas é o autarca provinciano em busca de notoriedade, com pouco cuidado em contactos suspeitos.
O tema do Urânio já estivera na ordem do dia em Nisa, pela ação de grupos ambientalistas, e agora é motivo do interesse pela Metalmint, um conglomerado canadiano, que promete mundos e fundos para várias dezenas de milhões de toneladas de urânio em Nisa, que podem vir a afetar um quinto da terra arável do concelho.
De súbito, surgem transações suspeitas, envolvendo prédios rústicos e mistos, prometidos a sociedades espanholas. Mas, para adensar o mistério e a suspeição, mais de metade das explorações vítimas de suspeitos incêndios são adquiridas por gente ligada ao negócio. Temos, assim, o quadro ideal para uma Intriga Internacional.
A advogada apercebe-se, porém, de que as condições oferecidas envolvem um grave atentado ao poder local e ao meio ambiente. Por isso, Naty prepara e desenvolve a defesa.
A luta adivinha-se dura. Os meios usados, de parte a parte, são ameaçadores. A Metalmint deseja extrair urânio à socapa e, por isso, apoia incendiários e especuladores imobiliários. Entra em ação a Associação Cívica - Justiceiros do Oculto - Nisa Sadia. A panóplia de instrumentos é vasta. Sun Tsu é citado: “Quando atacares, cai que nem um relâmpago.”
O enredo policial envolve atentados e mortes, suspense, dúvidas e riscos… Temos os ingredientes necessários para percebermos as virtudes de um bom divertimento literário.