Hoje não dá!

Pedro Lucas

Diretor das revistas 'Men's Health' e 'Women's Health'

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Hoje estou cheio trabalho. Hoje está de chuva. Hoje o trânsito está impossível. Hoje é segunda-feira e ninguém começa nada à segunda porque as segundas são sempre stressantes. Hoje é sexta-feira e ninguém começa nada à sexta porque as sextas são sagradas. Amanhã talvez, segunda-feira de certeza.

Segunda-feira é uma espécie de entidade moral. Tem sempre um ar de redenção, de início de vida nova, quase religioso: segunda-feira vamos treinar, segunda-feira começamos a comer melhor, segunda-feira deixamos os doces, segunda-feira levantamo-nos mais cedo, segunda-feira fazemos aquela corrida leve, só vinte minutos para começar. Entretanto passam algumas segundas-feiras. E depois outras. E depois mais umas quantas que se dissolvem discretamente no calendário enquanto o corpo vai fazendo pequenos ajustes silenciosos – nada dramático, atenção! –, apenas um botão das calças que deixa de apertar, uma camisa que encolheu misteriosamente - logo você que sempre vestiu um M e agora o L está apertado? –, um cinto que parece ter perdido furos durante a noite. Coisas normais. Coisas da idade, diz-se. Aliás, a idade é sempre um argumento extraordinário, resolve quase tudo: engordar, cansar-se a subir umas escadas, ressonar, dores nas costas... A culpa está sempre na idade. E para muitas pessoas, ela é o argumento conveniente, assim como o tempo. Aliás, conjugação explosiva esta que me surge enquanto os meus dedos desfilam pelo teclado do meu computador. Portanto: idade + tempo = desculpas mil.

O tempo é terrível. Nunca aparece nos cenários mais desafiantes, como para fazer exercício físico. Curiosamente encontra-se sempre tempo para séries de televisão, para mais um jantar pesado, para mais um copo, para mais um domingo inteiro passado no sofá a afagar a sua doce barriga que cresce a um ritmo semelhante ao dos preços dos combustíveis.

Depois há o detalhe curioso da esperança. Porque no fundo acredita-se sempre que não é assim tão grave, que um dia voltam a cuidar da saúde física, que quando houver motivação tudo muda, como se a motivação fosse um autocarro que se apanha quando se arranjar tempo. Só que, caríssimos, o corpo, esse ingrato, não costuma esperar muito. Vai acumulando pequenas faturas. Um pouco de peso aqui, um acréscimo de colesterol ali, a tensão arterial que sobe discretamente... Até ao dia em que surge algo de revolucionador. Às vezes acontece numa manhã tranquila de sábado. Uma dor estranha no peito, um aperto que nunca sentiu, uma sensação de cansaço que aparece repentinamente. Nada de dramático, apenas o suficiente para fazer uma visita inesperada ao hospital, aquele lugar onde o frio das salas de espera tem uma forma muito particular de nos obrigar a pensar que talvez aqueles vinte minutos de caminhada não fossem assim tão impossíveis. Talvez aquelas desculpas todas fossem apenas isso, desculpas! E talvez, apenas talvez, o amanhã que parecia tão generoso estivesse afinal à espera de uma decisão tomada muito antes. Porque a verdade pouco poética é esta: um susto raramente aparece de repente. Normalmente esteve anos à espera que alguém parasse de adiar uma segunda-feira.

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