Hassabis, AGI realista e amanhãs que cantam

Jorge Costa Oliveira

Consultor financeiro e business developer

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Em 2020, Demis Hassabis e John Jumper apresentaram um modelo de inteligência artificial (IA) chamado AlphaFold2. Com a ajuda deste modelo, é possível prever a estrutura de praticamente todas as proteínas conhecidas. O AlphaFold2 tem sido amplamente utilizado em diversas áreas, incluindo pesquisas farmacêuticas e em tecnologia ambiental, e valeu-lhes o Prémio Nobel de Química em 2024.

O AlphaFold2 é um dos melhores exemplos dos benefícios que a IA especializada pode trazer para melhorar a vida de muitas pessoas. Mostrando porque seria altamente desejável que as empresas desenvolvendo IA se focassem em IAs especializadas.

Porém, para várias das principais empresas tecnológicas americanas, a prioridade parece ser alcançar o mais rapidamente possível a IA Geral (AGI), i. e., uma inteligência de nível similar ao humano numa generalidade de áreas. Investimentos massivos promoveram rápidos avanços nos modelos de grande linguagem (LLMs) e criaram uma onda de otimismo generalizado nos “gurus” do setor. Sucede que grande parte do financiamento e da avaliação financeira dessas empresas tecnológicas depende da celeridade na corrida para atingir a AGI, pelo que não faltam estimativas preconizando-a para muito brevemente, numa espécie de otimismo interesseiro. Elon Musk estima que “uma inteligência artificial mais inteligente do que o mais inteligente dos humanos” ocorra já em 2026. Embora as suas estimativas costumem sofrer de um atraso assinalável; convém recordar que o genial investidor anda há uma década a prometer para o próximo ano carros Tesla totalmente autónomos. Roman Yampolskiy, diretor do Cyber Security Lab e um dos maiores especialistas em cibersegurança envolvendo IA, previu, em setembro de 2025, que “provavelmente teremos robôs humanoides com flexibilidade e destreza suficientes para competir com humanos em todos os domínios” em 2030. Ilya Sutskever, co-fundador e ex-Chief Scientist na OpenAI, prevê que a AGI possa surgir nos próximos 5 a 10 anos, embora reconheça incerteza quanto a este calendário. Uma das poucas vozes pouco otimistas quanto ao horizonte temporal para atingir a AGI é Yann LeCun, ex-cientista-chefe de IA da Meta Platforms e vencedor do Prémio Turing, que pensa que estamos a décadas de a atingir, desde logo porque f alta às IAs baseadas em LLMs um “modelo de mundo” [tridimensional].

Um aspeto essencial nesta discussão prende-se com o conceito de AGI.

Por exemplo, em recentes declarações, a OpenAI define literalmente a AGI como um sistema capaz de superar os humanos na maioria dos “trabalhos economicamente valiosos”. Por outras palavras, se ela substituir empregos suficientes ter-se-á atingido a AGI. Ou seja, já estamos com um pé lá.

Há uns dias atrás, numa entrevista no podcast NothingButTech, Demis Hassabis veio deixar claro que acha que a referida definição-limiar da OpenAI não faz sentido e, de algum modo, juntar a sua opinião à de Yann LeCun.

Para Hassabis, a verdadeira inteligência geral tem de ser capaz de fazer o que o cérebro humano consegue fazer, porque o cérebro é a única prova que temos de que este tipo de inteligência é sequer possível. Num remoque à OpenAI, ele chamou a isso “um nível mais elevado do que simplesmente poder fazer algum trabalho económico útil”. Depois referiu o teste real: a IA de hoje leu tudo o que os humanos alguma vez escreveram, incluindo a teoria da relatividade; pelo que, quando explica a relatividade de volta, está a repetir uma resposta que já existe. Isso não é inteligência. Por isso, Hassabis propõe que se faça um teste que torna a memorização impossível: treinar uma IA apenas com o que a humanidade sabia em 1901, quatro anos antes de Einstein publicar a teoria da relatividade restrita, e pedir-lhe que crie a teoria da relatividade por si só. Não pode procurar a resposta, porque em 1901 a resposta ainda não existe. A única forma de passar será fazer o que Einstein fez: pegar na mesma física que todos os outros tinham então e raciocinar até uma ideia que nenhum humano alguma vez teve. Hassabis diz que nenhuma IA hoje em dia consegue fazer isso, por mais conhecimento que tenha acumulado e decorado. O que significa que aquilo a que alguns “gurus” de IA continuam a chamar “quase AGI” é, na verdade, o melhor bibliotecário da história. Consegue encontrar qualquer resposta que já exista, mas não consegue criar uma que não exista.

Hassabis refere ainda um segundo teste, utilizando como exemplo o fantástico AlphaGo, o sistema que a sua própria equipa construiu, o qual inventou novas estratégias e jogadas que nenhum humano tinha jogado em 2.000 anos do jogo ‘Go’. Toda a gente considerou geniais essas estratégias e jogadas inovadoras, mas Hassabis diz que esse ainda não pode ser o critério. O verdadeiro teste não é se uma IA consegue inventar uma nova estratégia ou jogada dentro do ‘Go’, mas sim se uma IA conseguiria inventar um jogo tão profundo, complexo e belo como o ‘Go’. Nenhum modelo existente hoje consegue fazê-lo.

Em suma, este vencedor de um prémio Nobel é claro quando nos diz que as máquinas – por ora essencialmente instrumentos – ainda não conseguem fazer a coisa que as tornaria genuinamente inteligentes, que é ter uma ideia verdadeiramente original.

Todavia, Hassabis acha que um dia uma IA será capaz de criar um jogo tão profundo, complexo e belo como o Go.  

E acredita que, até 2050, uma “AGI segura” irá chegar.

Não nos diz que tipo de AGI. Contudo, teve a coragem de colocar uma fasquia alta e mais racional que a de Sam Altman e outros angariadores de capital para megaprojetos de IA.

O problema é que Hassabis também acha que, até 2050, teremos resolvido os problemas de crescimento económico e ultrapassado o dilema económico base – satisfazer necessidades ilimitadas com recursos limitados – e que encontraremos forma de compensar os efeitos negativos (ex: desemprego massivo) dos ganhos de produtividade gerados por IA. Também considera que a meio do século, i. e., na próxima geração, estaremos focados na exploração espacial por havermos resolvido muitos dos outros problemas que atualmente afligem a humanidade.

E é aqui que reside um dos dramas essenciais do nosso tempo – mesmo os “gurus” de IA com manifesto bom senso e realismo quanto ao seu desenvolvimento, facilmente derrapam para irrealistas amanhãs que cantam quando tecem considerações sobre o devir próximo da humanidade em resultado da utilização generalizada de IA.

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