Hamza, Yamal e os sonhos afogados

Rui Frias

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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"No nosso país, os sonhos matam-nos", desabafou Hamza El Yemen ao jornal Le Monde, ao regressar a casa depois de dois dias de ilusões frustradas em Ceuta. Hamza, um jovem marroquino de 25 anos, acreditou, como milhares de outros jovens, que esta era “a oportunidade de uma vida”. Viu nas redes sociais que “a fronteira estava aberta”. Outros contaram que “a polícia deixava passar”. Houve quem atravessasse a nado e quem caminhasse quilómetros apenas com a roupa do corpo.

Talvez seja por aí que esta história deva começar, antes das jogadas e lutas geopolíticas, das facadas nas costas entre capitais europeias, ou da previsível narrativa inflamada da direita radical. Pelos nomes e rostos daqueles que continuam a olhar para a Europa como uma promessa pela qual vale a pena arriscar a vida. Ao jornal italiano La Stampa, o escritor marroquino Tahar Ben Jelloun descreveu esse impulso de forma simples, com um nome que representa as ilusões de toda uma geração no norte de África: Lamine Yamal, o craque futebolista cuja história é a prova viva de que um filho da imigração marroquina pode chegar ao topo.

Desta vez, o sonho encontrou terreno fértil em rumores difundidos nas redes sociais e que terão sido alimentados por interpretações oportunistas de um acórdão do Supremo Tribunal espanhol sobre as devoluções de migrantes chegados por mar, criando a ilusão de um acesso facilitado ao espaço europeu.

Bastaram poucas horas, contudo, para que a história deixasse de ser sobre aqueles milhares de jovens e a crise humanitária se transformasse numa batalha política, sobretudo dentro da União Europeia, onde o governo socialista de Sánchez enfrenta um isolamento crescente perante uma maioria de governos de direita e, nalguns casos, de direita radical.

A italiana Giorgia Meloni foi das primeiras a endurecer o discurso, chegando a defender a suspensão do espaço Schengen com Espanha e promovendo uma carta, subscrita por 22 Estados-membros, a exigir uma resposta europeia mais dura na defesa das fronteiras, apontando o dedo às políticas migratórias de Sánchez como um fator de risco para a UE. Honra seja feita, tanto o governo português como França recusaram associar-se à iniciativa, privilegiando a solidariedade para com um vizinho sob pressão.

A coincidência entre esta vaga migratória, a recente aproximação de Sánchez à Argélia e as ligações da monarquia marroquina à administração Trump e a Israel (para quem o governo espanhol é, como se sabe, um “irritante” engulho) alimentam também a suspeita de que Rabat terá aproveitado para voltar a recordar o valor estratégico dos fluxos migratórios como instrumento de pressão diplomática.

Tudo isto será debatido durante meses. Discutir-se-á Schengen, a política migratória europeia, o futuro de Sánchez e o crescimento da direita radical. Entretanto, quase sem ninguém reparar, o Mediterrâneo voltou a fazer aquilo que faz demasiadas vezes. Engoliu mais de 70 pessoas, para quem o sonho europeu foi uma ousadia que lhes custou a vida.

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