Guerra no Irão: o risco da escalada e o teste ao novo líder

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A nova guerra envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos não é apenas mais um episódio de tensão no Médio Oriente: é um momento de possível reconfiguração geopolítica. O conflito coloca frente-a-frente interesses regionais, rivalidades globais e uma questão central: até que ponto uma escalada militar pode realmente produzir segurança ou apenas gerar mais instabilidade?

Para Washington e para o governo israelita, a lógica da acção militar é clara: reduzir ameaças estratégicas e impedir que o Irão consolide capacidades militares consideradas perigosas. No entanto, a história recente da região mostra que guerras no Médio Oriente raramente terminam onde começaram. Quase sempre abrem novas fracturas, alimentam redes de milícias e ampliam ciclos de confrontação. No fundo, as guerras no Médio Oriente raramente terminam os conflitos iniciados, apenas escalam para novos distúrbios. É assim desde 2000 a.C.

Ao mesmo tempo, conflitos prolongados têm efeitos que ultrapassam o campo de batalha. A atenção estratégica dos Estados Unidos e dos seus aliados dispersa-se, os preços da energia tornam-se mais voláteis e outras potências observam atentamente as oportunidades que surgem quando o Ocidente divide os seus focos de crise. Uma dessas potências é, como obviamente se explica, a Rússia. Um Ocidente dividido, menos atenção - e armas - se dá à Ucrânia.

É neste cenário delicado que surge a ascensão de Mojtaba Khamenei à liderança suprema do Irão. Durante anos uma figura discreta, mas influente nos bastidores do regime, Mojtaba construiu relações próximas com os sectores de segurança e com a Guarda Revolucionária. A sua chegada ao topo do poder acontece no pior momento possível: um país sob pressão externa, dificuldades económicas profundas e um ambiente regional altamente volátil.

A reputação que o acompanha sugere uma liderança pouco inclinada a concessões. E, principalmente, uma raiva ao Ocidente, a roçar “a guerra santa”: é um problema estrutural e ideológico, mais até que de força militar. Ainda assim, governar em tempo de guerra pode impor pragmatismo, mesmo aos líderes mais ideológicos.

No final, a questão decisiva permanece em aberto: se esta guerra irá redefinir o equilíbrio regional ou apenas inaugurar mais um ciclo de confrontação prolongada. A história da região aconselha prudência. No Médio Oriente, as consequências das guerras raramente correspondem aos planos iniciais de quem as começa.

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