Águas de julho

Nuno Vinha

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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As dezenas de milhares de habitantes do concelho de Almada afetados por graves falhas no abastecimento de água nas últimas semanas são apenas a face visível de um problema mais profundo, que afeta aquela autarquia e muitas outras em todo o país. As câmaras não estão habilitadas, na maioria dos casos, para gerir as redes de abastecimento, não estão empenhadas em ter a melhor gestão profissional (ou privada, já agora) a lidar com o tema e fogem, sempre que podem, de investir os montantes adequados na recuperação de infraestruturas de abastecimento há muito obsoletas ou a precisar de renovação urgente.

Uma das razão para esta observação é que os decisores políticos locais “odeiam” investir em recuperação das condutas de água dos seus municípios. É obra custosa, morosa e sem visibilidade no momento das eleições. Pior, é investimento que ou acrescenta à dívida ou, mais do que provavelmente, resultará num agravamento da tarifa cobrada aos habitantes (sendo que, para começar, o custo da água é, desde já, demasiado baixo). Pior ainda, só haverá títulos na imprensa sobre este tipo de investimento caso algo corra mal. Nunca, se tudo funcionar como se pretende.

"As dezenas de milhares de habitantes do concelho de Almada afetados por graves falhas no abastecimento de água nas últimas semanas são apenas a face visível de um problema mais profundo (...)."
"As dezenas de milhares de habitantes do concelho de Almada afetados por graves falhas no abastecimento de água nas últimas semanas são apenas a face visível de um problema mais profundo (...)."Arquivo DN

Por isso mesmo é fácil de entender a listagem – a partir de dados da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos – sobre o investimento dos municípios portugueses na recuperação das tubagens que nos fazem chegar a água.

Em cinco anos, entre 2019 e 2023, o município de Almada – que alberga mais de 170 mil pessoas – recuperou um total de 10,6 quilómetros de condutas de abastecimento de água. Ou seja, 0,3% do total. Lagos recuperou 4,3 quilómetros de condutas (0,2%). E Setúbal recuperou 8 quilómetros (0,6%). A lista dos mais relapsos é extensa e mostra um padrão de abandono desta medida crucial. A lista mostra outro padrão: todos estes municípios estão entre os que registam mais perdas reais de água por ramal (a tubagem que liga a conduta da rua ao contador do cliente).

Os dados da ERSAR indicam que, em 2023, a rede de abastecimento de água de Almada perdia 402 litros diários por ramal. Uma perda real global de 29% de toda a água potável abastecida. Atualmente, os dados mais recentes indicam que a perda é de 284 litros por ramal, uma melhoria que – ainda assim – é suficiente para colocar os serviços de Almada na lista das 10 autarquias em que mais se desperdiça água na rede.

"Em cinco anos, entre 2019 e 2023, o município de Almada – que alberga mais de 170 mil pessoas – recuperou um total de 10,6 quilómetros de condutas de abastecimento de água. Ou seja, 0,3% do total.”

Foi isto que indicou a ministra do Ambiente quando questionada em público sobre a polémica em Almada: naquele município, a rede de abastecimento perde 35% da água que flui pelos canos.

Com milhares de pessoas nas ruas em protesto; com vários destes indicadores nas notícias e nos relatórios do regulador; com o própria líder da banca do PS na Assembleia Municipal de Almada – numa decisão algo insólita – a pedir a cabeça da presidente da Câmara, Inês de Medeiros decidiu acusar o Governo de “empolar” o caso “para tentar fugir da polémica do exames nacionais”.

É verdade que a avaliação dos exames nacionais está a correr rematadamente mal. E não é claro se, de facto, o Governo pôs a ministra do Ambiente a abordar o tema de Almada para desviar as atenções. Mas o senso comum diz-nos que não se pode empolar algo que já rebentou. Neste caso, como noutras polémicas nos últimos anos, a presidente da Câmara de Almada parece estar a ser arrastada pela corrente. Cada vez mais para fora de pé.

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