Portugal regozijou-se por termos sido eleitos para a função de membro não-permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, para o próximo biénio. São muitos os motivos para esse júbilo.À data do 25 de abril de 1974, Portugal era um Estado pária na ONU, pese embora o denodo e o profissionalismo com que a nossa diplomacia tentava superar a posição a que estávamos remetidos por via da estreiteza política do regime. Nessa data e por força dos conflitos em África, éramos na NATO um Estado ausente. Só na EFTA a situação portuguesa era normal.A nossa diplomacia tinha uma reduzida experiência do domínio multilateral. A ONU podia ser tida como exceção, mas o exercício que ali se fazia era tão artificial e isolado que acrescentava pouco.Em 1974 as FA portuguesas estavam orgânica e doutrinariamente orientadas para a contraguerrilha que enfrentávamos em África e muito distantes das doutrinas e práticas da NATO. Para ambas as Instituições, Diplomacia e Forças Armadas, as coisas mudaram para muito melhor nestes últimos 50 anos de afirmação soberana e democrática de Portugal. Por via da ação política, assente num consenso nacional alargado em matéria de Política Externa e de Defesa Nacional e também beneficiária do que foram sendo as ações internacionais de uma e outra das duas Instituições, Portugal foi construindo a imagem que tem hoje no Mundo. A de um parceiro honesto e fiável, capaz de identificar e estabelecer pontes, isento e desprovido de uma agenda nacional que interfira pela negativa nos processos em que participamos. Por outro lado, Portugal tem sabido utilizar bem a sua rede de conexões e influências à escala do globo e que resulta do nosso passado e da diáspora lusa. Para a sua escala de Poder, Portugal tem uma presença e uma voz globais de que os Estados análogos não dispõem. E mais poderia ter se fossem outros os recursos humanos e materiais disponíveis. A fulanização faz-nos valorizar, enquanto êxitos da nossa diplomacia, as escolhas de Durão Barroso, de António Guterres e de António Vitorino para relevantes cargos internacionais. Em tudo isso houve intervenção e mérito da diplomacia portuguesa. Mas o grande mérito esteve sobretudo nessas personalidades.Os casos de muito sucesso da nossa diplomacia são outros. Desde logo o estabelecimento de francas e frutuosas relações com os estados lusófonos saídos de duros conflitos com Portugal. Depois o extraordinário êxito no caso da transição da administração de Macau para a China. E também o desfecho positivo do processo de independência de Timor-Leste, em que persistimos praticamente sós, ainda que bem acompanhados pela razão e pela Lei. O sucesso conseguido, agora pela quarta vez, na eleição para membro não permanente do Conselho de Segurança é muito relevante. Menos pelas perspetivas de desempenho no quadro desse Conselho, infelizmente tão dividido e desvalorizado pela ação de três (China, Estados Unidos e Rússia) dos seus cinco membros permanentes. Mais pelo que representa de reconhecimento positivo de Portugal à escala do Mundo, uma vez que a eleição traduz uma escolha de todos os Estados. Outro caso de sucesso é o desempenho exemplar, nas quatro vezes em que nos coube a Presidência rotativa da União Europeia. Paralelamente, as FA recuperaram dos traumatismos do PREC, souberam fazer a sua reorientação doutrinária e organizativa para os cenários da guerra nuclear e convencional na Europa, ganharam credibilidade junto de aliados e parceiros e, a partir de 1995, iniciaram um processo de intensa internacionalização através da participação em operações no âmbito da ONU, da NATO e da UE, além de um empenhamento constante em ações de cooperação bilaterais e multilaterais.Nessas solicitações foram até ao presente envolvidos mais de 40.000 militares do Exército, da Marinha e da Força Aérea, em dezenas de Teatros de Operações de quase todos os continentes. São números muito reveladores, ao que se deve acrescentar a excelência dos seus desempenhos, assim reconhecidos por quem com eles contactou e por todos os escalões internacionais de comando de que dependeram. Ressalvadas limitações determinadas por algumas insuficiências de equipamento, as FA Portuguesas, nesses múltiplos empenhamentos, nunca ficaram atrás de ninguém.Tem assim o Estado Português ao seu dispor duas Instituições de soberania de excelência, cosmopolitas, conhecedoras do Mundo complexo dos nossos dias e nele testadas com grande sucesso. E as duas marcadas por uma pulsão de serviço público. Ao Estado e à comunidade nacional. Não é coisa pouca nem pequena!