Corre sem vela e sem lemeo tempo desordenado… - CamõesNão por acaso, nós portugueses escolhemos como símbolo da nossa identidade um poeta. Encontramos noutros casos heróis, guerreiros, símbolos míticos, mas não poetas, pessoas de carne e osso, com o seu talento, as suas angústias e dúvidas.Camões, Poeta, Herói n’Os Lusíadas (Tinta da China) de Helena Buescu constitui uma magnífica reflexão sobre o caráter único de Camões, enquanto símbolo de uma cultura criativa e fecunda, partindo de Keats, que nos fala, de capacidade negativa, correspondendo nos grandes autores, como Shakespeare, à descrição de um mundo contraditório, envolvendo a um tempo, glorificação e desconcerto.Como fez Virgílio, o mestre da Eneida, inspirador de Camões, este proclama no seu poema maior a importância da fama, cabendo-lhe não só enaltecer o acontecimento que elogia, mas também considerar-se a si próprio como participante desse momento único. O épico coloca-se, por isso, ao lado do próprio Gama na chegada à Índia, participando assim nesse momento pioneiro da História da Humanidade. O poeta não é apenas narrador, cabendo-lhe a tarefa de participar, designadamente ao lado de outras personagens marcantes, como o Velho do Restelo ou o Adamastor, enquanto a voz criativa do poema.Jorge de Sena disse, por isso, que o vate se transforma nas personagens “que introduz, falando conforme a qualidade de cada um e das matérias”. E Helder Macedo confessa que Os Lusíadas talvez seja “o poema épico onde o discurso personalizado do autor mais vivamente se faz sentir”. Deste modo, se ilustra a capacidade negativa de Keats: “A poesia épica (mas também lírica), para se afirmar enquanto tal, precisa de manifestar a sua capacidade de celebrar o canto e de criticar o mal e o desconcerto, em simultâneo.”O caso do Velho do Restelo tem importância especial. Ele é o alter ego do poeta, e até porta-voz de Francisco Sá de Miranda ou do especial amigo do poeta, Diogo do Couto. Aí está o alerta relativamente ao risco dos fumos da Índia e à influência dos mercadores e missionários. Oh glória de mandar, oh vã cobiça… Camões torna-se participante ativo, com a espada e a pena, como interrogante do curso dos acontecimentos.De facto, a glória não se afirma sem o desconcerto, e a perenidade de Os Lusíadas decorre dessa capacidade de o poeta nos pôr diante da realidade. Glória e desconcerto não são realidades contrapostas. Do que se trata em Os Lusíadas é de uma interrogação sobre a nossa própria existência, num momento crucial da nossa História.Por isso, o texto camoniano é um dos momentos mais altos (se não o mais alto) da nossa memória histórica e simbólica, moldada em termos literários. E Camões é alguém que acrescenta o seu juízo aos acontecimentos, representando as vozes relevantes de uma introspeção necessária.Eduardo Lourenço dirá: “Nenhuma barca europeia é mais carregada de passado do que a nossa. Talvez por ter sido a primeira a largar do cais europeu e a última a regressar. (…) Mas nenhuma (das outras) nações ou antes, culturas-nações, convive com o passado como a nossa. Simbolicamente, nenhum povo vive no passado, em particular naquele a que nós devemos o nosso perfil singular - como Portugal…” Premonitoriamente, o grande Camões intui essa mesma consciência, ao recusar ver apenas o lado glorioso sem assumir plenamente o desconcerto.