Geração talvez

André Santos Pereira

Professor universitário e analista político

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 Em 2019, numa sondagem à boca das urnas, metade dos eleitores entre os 18 e os 24 anos votou Partido Socialista, Bloco de Esquerda, CDU ou PAN. Em 2025, num exercício equivalente, a Aliança Democrática e o Chega somaram 56%. O PS teve 25% entre os mais novos em 2019, quando valia 36% no país, e, mesmo na maioria absoluta de 2022, ficou nos 27% entre os menores de 25 anos, contra 41% no total; em 2025, caiu para 11%, quando o país lhe deu 23%. Entre os jovens, o PS vale hoje menos de metade do que vale no país.

Não foi sempre assim. Entre 2002 e 2019, os estudos eleitorais mostravam PS, BE e centro-direita a disputar o voto jovem de forma estável. Um estudo de oito legislativas conclui que, em 2022 e 2024, a direita passou a ter um eleitorado mais jovem do que a esquerda, invertendo duas décadas. A erosão não é só do PS. Em 2025, o BE perdeu mais de metade do apoio entre as mulheres com Ensino Superior, a CDU continuou a perder os mais novos e, entre os homens com menos de 25 anos, a IL já tinha mais votos do que o PS. O único partido de esquerda a crescer, e a crescer sobretudo entre os jovens, foi o Livre.

A síntese é esta: a esquerda cresce entre os jovens quando se apresenta com ideias novas, não quando promete apenas assegurar o que já existe.

Não é um acaso. Norberto Bobbio situou na atitude perante a igualdade a fronteira mais persistente entre esquerda e direita, e a social-democracia acrescentou-lhe uma condição: ninguém exerce uma liberdade para a qual não tem condições materiais. A escola pública, o SNS e os direitos no trabalho davam a quem nascia com menos uma hipótese de começar mais à frente do que os pais. Em parte, resultou: segundo a OCDE, os jovens dos 25 aos 34 anos com Ensino Superior passaram de 33% para 43% numa década.

Só que a linha de partida mudou de sítio, do diploma para a casa. Desde 2015, os preços da habitação subiram 180% e a remuneração média 44%: Em dez anos, o preço das casas medido em salários, quase duplicou. Entre famílias com representantes nascidos de 1967 a 1976, cerca de 70% eram proprietárias aos 25-34 anos; na geração de 1987 a 1996, cerca de 40%, segundo o Banco de Portugal. E os jovens saem de casa dos pais, em média, perto dos 29 anos, mais de dois anos e meio depois da média europeia. Dois jovens com o mesmo curso e o mesmo salário têm vidas diferentes se só um contar com os pais para a entrada ou com a casa dos avós, cuja herança está isenta de imposto do selo.

O Governo fez do Estado fiador dos que não têm pais que o sejam, mas, sem oferta, o crédito facilitado a quem compra torna-se preço para quem vende. Criticar o Governo é a parte fácil. A OCDE descreve um arrendamento segmentado e isenções de mais-valias que preservam os ganhos de quem já era proprietário, regras em que ninguém tem pressa de mexer, incluindo uma esquerda que se habituou a apresentar-se mais como guardiã dos valores adquiridos do que interessada em abrir o debate sobre os que falta conquistar. E, para uma geração que vê a expectativa de viver melhor do que a geração anterior convertida em utopia, um partido que promete sobretudo conservar o que existe é um partido que só serve os outros.

Recuperar esta geração não passa por defender menos o Estado social, mas antes por recusar que este seja uma obra acabada. Significa fazer pela habitação o que se fez pelo Ensino Superior, com casas públicas para arrendar a preços que um primeiro salário pague, e rever as vantagens fiscais que protegem o ganho patrimonial e não a casa para viver. É terreno onde a esquerda tem que estar, sob pena de deixar órfã uma geração que precisa de respostas e que, na ausência delas, deixa legitimamente de acreditar que o Estado proteja os seus interesses.

A casa é a peça maior, não a única. O Estado social protege dos riscos do caminho, como doença, desemprego e velhice. O risco desta geração está antes, na linha de partida, e chama-se adiamento. Em média, os portugueses querem 2,15 filhos e contam ter 1,69, e metade das mulheres dos 40 aos 49 anos teve menos filhos do que queria, diz o Inquérito à Fecundidade. Reduzir essa distância pede o que a esquerda que intensifique o que já mostrou saber fazer com o passe único e a creche gratuita: creches públicas, transportes que permitam viver onde a casa é possível sem perder a vida no caminho, horários e licenças que caibam numa família. Mais do que um programa para jovens, seria renovar a promessa social-democrata: não proteger apenas quem já chegou, mas dar aos outros condições para começar.

Se a esquerda quer recuperar a confiança dos jovens, não chega acrescentar retórica ou ficar confortável com a ideia de que talvez um dia venham a viver melhor do que os seus pais. A resposta tem de ser para agora, para quem precisa e para quem está a adiar a sua vida há demasiado tempo. Se assim não for, de adiamento em adiamento, corre o risco de perder definitivamente esta geração. Porque, como nos lembra Sam the Kid, "um dia é muito tempo quando tem um talvez atrás".

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