Finalmente, vacinas para combater o cancro

Filipe Froes

Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

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“Eu não sou o resultado das minhas circunstâncias. Eu sou o resultado das minhas decisões.”

Stephen R. Covey, escritor, consultor e professor universitário norte-americano (1932-2012)

O desenvolvimento de vacinas contra o cancro tem sido um dos maiores desafios da medicina atual. Felizmente, a ciência não parou e, desde o ano 2000, mais de uma centena de ensaios clínicos com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) têm mostrado resultados promissores, em particular nos cancros da pele, do cérebro, da mama, do pulmão, do pâncreas e da próstata. Aquilo que parecia impossível ou distante tornou-se hoje uma das grandes esperanças da humanidade, graças à mesma tecnologia usada durante a pandemia de COVID-19. Percebe-se agora melhor o alcance do Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2023, atribuído a Katalin Karikó e Drew Weissman, pelas descobertas fundamentais que permitiram o desenvolvimento das vacinas de mRNA, estudadas há décadas.

Estas vacinas transportam um conjunto de instruções que permitem a produção de proteínas específicas fora do núcleo das células, ensinando o nosso sistema imunitário a reconhecer e a destruir essas proteínas. Funcionou contra a proteína da espícula do vírus pandémico, o SARS-CoV-2, e, no cancro, facilita a identificação e a destruição das células tumorais, poupando as células saudáveis.

Finalmente, há cerca de um mês, foram divulgados os resultados de um estudo clínico que utilizou uma vacina personalizada de mRNA em doentes com melanoma, um cancro da pele, em combinação com imunoterapia. Os resultados confirmaram uma redução significativa da recorrência do melanoma e, indiretamente, escancararam a porta a uma nova vaga de vacinas no combate ao cancro.

Infelizmente, estes resultados extraordinários têm sido prejudicados pela ignorância, pela ilusão do conhecimento e pela desinformação em saúde, que cresceram exponencialmente desde a pandemia. Uma das teorias mais prejudiciais é o falso, disparatado e infundamentado conceito de cancro turbo, ou “turbo cancer”, que associa errada e maliciosamente as vacinas de mRNA a cancros invulgarmente agressivos. Se dúvidas houvesse sobre a capacidade cancerígena de uma minúscula vacina de mRNA, bastaria recordar os efeitos nocivos da exposição maciça à radiação ionizante das explosões atómicas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, associados ao aparecimento de cancros muitos anos mais tarde. Uma das principais pessoas envolvidas na divulgação do conceito de “turbo cancer” é o charlatão canadiano William Makis, formado em Medicina em 2005 e, desde 2019, proibido de exercer medicina e até de usar o título de doutor na província de Alberta, no Canadá.

A tecnologia de mRNA permitiu inúmeros avanços e o combate ao cancro é um dos mais promissores. Só o conhecimento fundamenta as melhores decisões.

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