Na cidade onde nasceu a Ferrari, o Lambrusco ou o Parmigiano, não era suposto que surgissem quatro irmãos malucos por bola e charadas. Só que estas coisas nunca se podem prever, e Giuseppe, fanático de palavras cruzadas e enigmas, teve a ideia maluca de organizar uma coleção de cromos. Experimentou com o seu irmão Benito e como o sucesso em Modena foi grande, incluíram no negócio os seus manos mais novos, Franco e Umberto. Os quatro fundaram a Panini e os cromos tornaram-se globais, uma máquina de multiplicar dinheiro.Preciso de me queixar de Giuseppe. E dos seus irmãos, filhos de um pai fascista até à medula. Sei que morreram há longos anos, que agora há netos e bisnetos, mas é o velho Giuseppe o culpado por ter perdido ontem uma parte da minha tarde a procurar uma loja que me vendesse a caderneta do Mundial. O meu filho mais novo pressiona-me, chora, diz que não come, que não lava os dentes, confessa-me que está a sofrer, que precisa de começar a colar os cromos, que já tem um papelinho com os números, que os amigos já têm repetidos para a troca, um absurdo.. Giuseppe é a figura do meu dia. Que invenção a sua. Vendeu a expetativa do que estará na carteirinha fechada, do que podemos encontrar no que ainda não vimos, no que não conhecemos, no que nos falta. E podermos trocar cromos com outros, fazer amizades e juntar esforços. Estoiramos o dinheiro, mas ficamos felizes. E na posse de uma coleção que vale mil vezes menos do que aquilo que nos custou. Grande Giuseppe, adorável sacaninha.