Durante seis minutos os céus do Porto e Gaia foram invadidos por 600 drones. Milhares de pessoas nas margens do rio testemunharam a sua aproximação, um vespeiro que, de um instante para o outro, se tornou visível aos olhos e ouvidos. É difícil de explicar o que aconteceu no passado sábado, não é simples descrever a inquietude, um medo que não foi bem isso, talvez a constatação da nossa fragilidade, uma antecipação de morte.Centenas de drones aproximaram-se enquanto milhares de pessoas abriram e fecharam os olhos, impressionou-me o silêncio de tanta gente nas margens, a expetativa, a incredulidade, o espanto. Poderiam estar carregados de bombas, mas nos céus do Porto e de Gaia desenharam um poema breve. Um papagaio, uma gaivota, azulejos, uma página em branco e depois em azul. Mais de 600 drones e um maestro a organizar o movimento, um dos maiores artistas contemporâneos, o chinês Cai Guo-Quiang a proclamar ao mundo que o apocalipse pode ser poesia, que um papagaio de infância é mais forte do que uma bomba, de que ainda existe uma página em branco para a humanidade.. Foram seis minutos, mas fui tocado para a vida. Estiveram nobéis e enormes figuras da literatura mundial no Babell, mas ninguém será capaz de apagar a brutal força da esperança deste luminoso maestro. Espero que hoje, com a imponência dos Clérigos e o som dos seus sinos, consiga, com o monólogo que escrevi, ser digno da responsabilidade de encerrar o festival que, nestes quatro dias, provou que a criação é o mais eficaz antídoto contra o mal.