Ser simpático hoje é um ato de profundo radicalismo. Diria até ser quase transcendente quando alguém nos sorri, diz “bom-dia” ou nos ameaça com um abraço. A regra é, na maior parte das vezes, poupar nas palavras, nos sorrisos e nos elogios que, pelos vistos, estão fora de moda e podem ser mal interpretados.A maioria de nós deseja não ser chateado, a mera ideia de um vizinho nos tocar à porta para pedir um raminho de salsa é motivo para tomar um ansiolítico ou fecharmo-nos por dentro, para que ninguém imagine que podemos estar em casa.. De vez em quando ficamos de mão estendida ou com as palavras penduradas no ar e sem resposta. Já não me importo quando acontece, não fico a remoer, como há uns tempos, o que é grave e um fortíssimo sinal de desistência por antecipação. Não responderem quando cumprimentamos alguém passou a ser o novo normal. Como enviar um e-mail sem esperar qualquer resposta.Para que viagem embarcou a delicadeza? Mais do que aquilo que fazemos com o nosso talento, mais do que o modo como realçamos a beleza do que escondemos ou o horror de que nos penitenciamos, mais do que a capacidade de ousar ou de sonhar, mais do que tudo isso, o que nos distingue verdadeiramente é o modo como gerimos a monotonia das nossas vidas… e a forma como tratamos os outros, os que passam por nós e nos sorriem.Volto então ao início, a uma frase de David Byrne, vocalista, do Talking Heads, numa entrevista que tem poucos dias: a simpatia tornou-se um ato de resistência.