Figura do Dia. A árvore que teve medo de ‘Kristin’

Publicado a

O senhor José morava ali desde que se lembra. Havia uma sombra que o confortava, uma amiga de sempre que o protegia a ele e à casa. Na sua juventude brincara nos seus troncos, nas suas angústias falara com ela sem necessidade de palavras, limitava-se a sentar-se à sua beira e a escutar a brisa que a árvore carregava.

Vivia no Luso, perto da mata do Bussaco, numa casinha de família que era tudo o que ambicionava para a sua solitária velhice. As memórias estavam ali, os abraços que dera, o cansaço da jorna, as mortes, a juventude. Envelhecera na companhia da casa - incrível como os lugares que habitamos nos acompanham -, e na presença do Castanheiro-da-Índia que já era adulto quando ele veio ao mundo.

O senhor José admirava profundamente aquela árvore por representar uma presença sem falhas ou maus humores. Admirava a sua grandeza, as folhas grandes, as flores que nasciam na primavera e as rugas do tronco.

Por vezes, em noites de frio e vento, a árvore assobiava como se tivesse medo. Na madrugada assombrada por Kristin, o castanheiro tornou a gemer. Um assobio mais fundo do que era hábito, um medo que era horror.

O senhor José sentiu a árvore entrar-lhe pela casa, furar-lhe as paredes do quarto, rebentar-lhe as janelas.

Conseguiu fugir e salvar-se. Já na rua viu a sua árvore galgar desesperada antes de cair num desamparo que meteu dó. Talvez pela cabeça do velho homem tenha passado a ideia de que a amiga desejava encontrar-se com ele, desafiá-lo para uma viagem eterna. Teve de ir sozinha.

Diário de Notícias
www.dn.pt