O Banco de Portugal publicou a sua avaliação anual da cobertura da rede de acesso ao numerário em Portugal. Os resultados são, globalmente, positivos. Existem quase 18 mil pontos de acesso. São indicadores que merecem reconhecimento. Em Portugal, continua a existir uma ampla rede de caixas multibanco. Mas será que é assim tão relevante ou estamos a esquecer o que importa?O relatório revela uma tendência que exige reflexão. A rede de agências bancárias com serviços de numerário diminuiu 15%, abrangendo 19 dos 20 distritos. Em quatro anos, 477 agências encerraram ou deixaram de prestar serviços de caixa. Além disso, cerca de 17% dos balcões já não disponibilizam operações de numerário. Em 12 anos, metade da rede de balcões desapareceu.Cada balcão que encerra representa mudanças profundas na vida dos trabalhadores bancários: mobilidades geográficas, reconversões funcionais e reorganizações que afetam carreiras construídas ao longo de décadas. Significa a perda de equipas que conhecem as comunidades, acompanham famílias e empresas e constituem um fator de confiança entre clientes e instituições.A proximidade bancária não se mede apenas em quilómetros. Mede-se na capacidade de aconselhar, apoiar clientes mais vulneráveis e garantir que a transformação digital não deixa ninguém para trás. A inovação tecnológica é indispensável, mas não substitui a presença humana numa atividade assente na confiança.O relatório identifica concelhos onde uma redução adicional da rede poderá agravar as dificuldades, sobretudo nos territórios de baixa densidade populacional. Nesses locais, a banca desempenha um papel que ultrapassa a prestação de serviços financeiros, contribuindo para a coesão territorial.Por isso, a reconfiguração da rede de balcões não deve assentar em critérios de rentabilidade de curto prazo. A experiência europeia demonstra que é possível conciliar modernização, eficiência e proximidade, através de soluções que preservem o acesso aos serviços bancários e reforcem a coesão social.A inovação tecnológica é essencial para a competitividade da banca, mas essa transformação tem de ser conduzida com responsabilidade social, diálogo e antecipação dos seus impactos sobre trabalhadores, clientes e comunidades.Há 40 anos, o regulador obrigava os bancos a manterem presença no interior e ilhas. Hoje, as preocupações com a coesão territorial e a igualdade de oportunidades no acesso ao crédito parecem ter desaparecido das prioridades de quem as deveria salvaguardar.Continuaremos a participar ativamente nesse debate, defendendo uma modernização que preserve a inclusão financeira, a coesão territorial e a valorização dos profissionais da banca.Porque uma agência bancária nunca é apenas um edifício e uma caixa automática nunca é apenas uma máquina. Por trás de cada operação bancária existe sempre uma pessoa.