Excelentes para dentro, indispensáveis para fora

Luís Bento Rodrigues

Administrador da Universidade de Coimbra. Representante de Portugal na HUMANE — Associação Europeia de Administradores Universitários

Publicado a

O Ensino Superior português já não é medido apenas pela qualidade interna.

Durante anos, discutimos o Ensino Superior português como se a universidade pudesse ser pensada apenas a partir de dentro: cursos, vagas, carreiras, financiamento, investigação, rankings, estatutos. Tudo isso importa. Mas já não chega.

No encontro anual da HUMANE - Associação Europeia dos Administradores Universitários, em Edimburgo, tornou-se evidente que a transformação em curso no Ensino Superior europeu é mais profunda. A pergunta decisiva deixou de ser apenas: temos boas universidades? A pergunta passou a ser outra: que papel devem ter as universidades num continente pressionado pela Inteligência Artificial, pela instabilidade financeira, pela competição global, pela demografia, pela segurança do conhecimento, pela crise climática e pela fragilidade das democracias?

A resposta que começa a emergir na Europa é exigente: a universidade do futuro terá de ser cívica, digital, colaborativa, resiliente e internacionalmente competitiva. Ou arrisca tornar-se irrelevante.

A primeira mudança é cultural. A universidade já não pode comportar-se como uma torre de marfim. O conceito de universidade cívica aponta para instituições profundamente ligadas aos seus territórios, capazes de irem além do ensino e da investigação para contribuírem ativamente para o desenvolvimento económico, ambiental, cultural e social das comunidades onde estão inseridas.

Portugal devia prestar atenção. Num país com assimetrias regionais persistentes, envelhecimento demográfico, baixa produtividade e dificuldade em transformar conhecimento em valor, as universidades não podem ser apenas lugares onde se ensina e se investiga. Têm de ser infraestruturas estratégicas de desenvolvimento: reter talento, apoiar empresas, qualificar a Administração Pública, reforçar a coesão territorial, promover cultura e acelerar a transição digital. O exemplo da Universidade de Edimburgo é elucidativo. A instituição não se limita a coexistir com a cidade: faz parte da sua vida cultural e económica, isto é, uma ideia de universidade ao serviço da comunidade.

A segunda mudança é tecnológica. A Inteligência Artificial já entrou nas universidades. A questão já não é se entra ou não.É saber se entra de forma desigual, desregulada e clandestina, ou se entra com governação, ética, segurança, formação e soberania institucional. Edimburgo apresentou a plataforma ELM®, criada para dar acesso seguro, equitativo e institucional a ferramentas de Inteligência Artificial.

A Technical University of Munich vai no mesmo sentido, integrando a IA no ensino, na investigação, na administração, na governação de dados e na avaliação, com atenção à privacidade, transparência, enviesamento, sustentabilidade e supervisão humana. Portugal não pode tratar a IA apenas como ameaça disciplinar ou curiosidade tecnológica. Deve assumi-la como literacia estrutural do século XXI.

A terceira mudança é financeira e organizacional. Em vários países europeus, a sustentabilidade das instituições está sob pressão. Discutem-se novos modelos de financiamento, serviços profissionais mais estratégicos, gestão de risco, digitalização, diversificação de receitas e maior exigência sobre o impacto produzido. Uma universidade moderna não pode ser excelente cientificamente e frágil administrativamente.

A quarta mudança chama-se resiliência. Não no sentido gasto da palavra. Resiliência universitária é antecipar riscos, adaptar estruturas, proteger a missão académica, assegurar continuidade, defender a liberdade científica e preparar pessoas para trabalhar de forma diferente. É passar da gestão da próxima crise para uma cultura permanente de colaboração, aprendizagem e responsabilidade institucional.

Portugal tem boas universidades, boa ciência e muito talento. Mas continua frequentemente preso a rigidez normativa, burocracia, dependência excessiva de projetos, dificuldade em reter pessoas e fraca articulação entre ciência, economia e sociedade. Não nos falta capacidade. Falta, muitas vezes, arquitetura institucional para a mobilizar.

A universidade portuguesa do futuro não pode ser apenas excelente para dentro. Tem de ser indispensável para fora.

A principal conclusão de Edimburgo é simples: as universidades que sobreviverão à próxima década não serão as que melhor defenderem o passado, mas as que melhor souberem construir confiança, conhecimento e futuro com a sociedade à sua volta.

Diário de Notícias
www.dn.pt