Este Verão use protetor solar e, também, uma razão para continuar a existir!

José Crespo de Carvalho

Professor catedrático do ISCTE-IUL e presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education

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Elon Musk deixou-nos uma mensagem de férias assente na esperança num mundo abundante mas, igualmente, na desesperança na inutilidade humana: dentro de poucos anos, a Inteligência Artificial poderá superar toda a inteligência humana somada. E, em dez anos, a IA fará melhor do que nós praticamente tudo. Tudo, salvo, por hipótese, ser humano.

É uma ideia perfeita para agosto. Entre uma bola de Berlim, um mergulho e uma fila para o restaurante, podemos começar a pensar no pequeno detalhe de estarmos a construir máquinas capazes de nos tornar indispensavelmente inúteis.

Indispensáveis, porque alguém terá de desejar, escolher, amar, rir, educar, cuidar e dar sentido ao que existe. Inúteis, porque a IA fará o relatório, escreverá o código, analisará o contrato, atenderá o cliente, conduzirá o carro e, com robôs humanoides, começará também a entrar no mundo físico. Musk chama-lhe a passagem da inteligência digital para a capacidade de moldar átomos.

O resultado, segundo ele, poderá ser uma economia quase infinita. Robôs a produzir bens e serviços em tal abundância que o dinheiro deixará de ser relevante. Diria eu que bem pior, exceção para a energia, os custos de fazer o que quer que seja serão esmagados, pelo que a produção de riqueza será um quebra-cabeças. O PIB será uma medida sem qualquer utilidade. E entraremos, portanto, num paraíso. Com uma pequena dúvida: o que faremos nós num mundo em que tudo pode ser feito sem nós? E como pagaremos as contas?

Musk admite que o caminho será acidentado. Diz que qualquer trabalho realizado num computador ou num telefone poderá, muito em breve, ser executado melhor pela IA. E prevê que, depois, os robôs façam o mesmo ao trabalho físico. Não fala apenas de substituir tarefas. Fala de ultrapassar pessoas.

É aqui que o verão deixa de ser silly e passa a ser sério.

A grande questão não é saber se a IA vai trabalhar por nós. Vai. A questão é saber se, quando o trabalho deixar de nos definir, teremos alguma coisa dentro de nós que ainda mereça ser definida.

Talvez precisemos de reaprender o humano antes que a máquina aprenda tudo o resto. Pensamento crítico. Curiosidade. Caráter. Relações. Propósito, seja isso o que for. Liberdade para escolher. Responsabilidade pelas escolhas. Autonomia para decidir.

Musk insiste em olhar para o lado luminoso. Diz que já não vê maneira de travar o impulso da IA e dos robôs. A solução é mesmo aproveitar a viagem. Concordo. Mas convém levar cinto de segurança.

Isto porque o futuro poderá dar-nos tudo. E, ainda assim, retirar-nos a sensação de sermos necessários.

Neste verão, descansemos (os humanoides não descansam!). Quando retomarmos, seremos um bocadão mais inúteis.

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