A zanga entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo, que levou o jogador a abandonar o estágio da Seleção Nacional, tem feito correr tinta no país e no mundo, demonstrando mais uma vez a importância que o futebol tem como fenómeno de massas e, sobretudo, a dimensão planetária da figura do craque madeirense.
Porém, no cerne da discussão não está o futebol, mas sim questões como profissionalismo, liderança e trabalho em equipa. Aquilo a que assistimos é um exemplo de algo que importa evitar na gestão das organizações e do próprio país.
Cristiano Ronaldo é um dos maiores jogadores de todos os tempos e ninguém lhe poderá tirar isso. Conquistou a pulso o seu lugar no topo. Sofreu muito, desde a infância, para poder chegar onde chegou. É um exemplo de dedicação, coragem, resiliência e ousadia. Para além de uma carreira ímpar no desporto, tem vindo a construir um percurso sólido como investidor e empresário e tudo indica que continuará a ser uma personalidade relevante na vida pública portuguesa, para não falar do desporto mundial, durante décadas. O que aconteceu em Copenhaga será, muito provavelmente, uma mera nota de rodapé quando um dia se escrever sobre a sua vida. Não resume a sua carreira nem o gigantesco contributo que tem dado ao futebol nacional e à imagem de Portugal no mundo.
Há momentos em que a grandeza de uma figura pública não é medida pelos seus títulos, mas pela forma como reage perante a adversidade. Independentemente das razões que possam estar na origem deste conflito, a verdade é que ninguém fica bem numa situação desta natureza. Nem o treinador, nem o jogador, nem a Federação.
Ainda assim, numa equipa, como em qualquer organização, tem de haver uma pessoa a quem cabe definir o rumo a seguir, tomar decisões e assumir as respetivas consequências. Essa pessoa é o treinador. Jorge Jesus pode estar certo ou errado na sua estratégia, mas é ele o primeiro responsável, para o que der e vier. Está sujeito à velha máxima de que, se as coisas correrem bem, o mérito será partilhado pela equipa; se correrem mal, a responsabilidade recairá sobre ele.
Poderia Jesus ter gerido melhor a situação, do ponto de vista da comunicação? Provavelmente sim. Aliás, uma das principais responsabilidades de qualquer líder é saber gerir talentos excecionais e evitar que divergências legítimas se transformem em conflitos públicos. Mas também é verdade que liderar não consiste apenas em agradar. Há momentos em que é necessário decidir, mesmo correndo o risco de gerar descontentamento.
Um atleta profissional deve saber que, por mais extraordinário que seja o seu talento, nenhuma equipa pode funcionar se as regras forem diferentes para cada um dos seus membros. O ego raramente é bom conselheiro. Em qualquer organização, o verdadeiro capitão é aquele que, mesmo quando discorda da liderança, procura colocar-se ao serviço do bem comum. E alguém com a experiência e o percurso de Cristiano Ronaldo saberá isso.
Há ainda uma dimensão que não pode ser ignorada. Ronaldo é seguido e admirado por milhões de crianças e jovens em todo o mundo. As suas atitudes, dentro e fora de campo, têm um impacto que ultrapassa largamente o futebol. Sozinho em campo, Cristiano Ronaldo é apenas um homem a correr atrás de uma bola. Com outros dez jogadores, é muito mais do que isso: torna-se parte de uma equipa que luta para ganhar e de um símbolo que representa um país inteiro.
Resta esperar que o bom senso impere, que os ânimos esfriem e ainda seja possível ultrapassar este episódio. E que Cristiano Ronaldo possa um dia despedir-se da camisola das quinas com a dignidade, a gratidão e a grandeza que merece.