Há momentos em que a realidade nos obriga a encarar o lado mais sombrio da condição humana. A morte da pequena Lara, alegadamente às mãos da madrasta como forma de vingança contra o pai, e o caso do homem que se atirou de um prédio levando consigo a filha de quatro anos, são duas situações na mesma semana que, embora distintas, revelam a mesma verdade brutal: as crianças continuam a ser usadas como instrumentos nos conflitos dos adultos.E é aqui que precisamos de dizer, com todas as letras: este país não é para crianças.Não é, quando continuam a ser colocadas no centro de disputas conjugais, usadas para ferir, manipular e controlar. Não é, quando a sua vulnerabilidade é explorada como ponto fraco do outro. Não é, quando a morte de uma criança se torna a forma mais extrema de vingança.Mas estes casos expõem também as fragilidades do nosso sistema de proteção. Um sistema cansado, gasto, em burnout, onde muitos profissionais fazem o impossível com recursos insuficientes. Um sistema onde crianças se tornam meros números processuais, acumuladas em listas de espera, porque há sempre outros casos “mais urgentes” que precisam de ser priorizados. E quando tudo é urgente, nada é verdadeiramente protegido.Precisamos de assumir que não basta boa vontade. Precisamos de estrutura, método e visão.É urgente criar protocolos de atuação específicos para os diferentes tipos de violência, porque violência doméstica, violência sexual, violência emocional ou negligência exigem respostas distintas.É urgente construir uma rede nacional de respostas qualificadas e especializadas, que garanta equidade territorial e acesso a equipas competentes, independentemente do código postal. Hoje, isso não acontece.É urgente reforçar equipas com mais formação, mais supervisão e mais estabilidade, porque ninguém consegue proteger bem quando está exausto, isolado ou sem apoio técnico. E é urgente que estas equipas tenham tempo real para avaliar, acompanhar, escutar e decidir.Estes casos obrigam-nos a revisitar, com rigor e honestidade, as nossas políticas públicas e as estratégias de intervenção e prevenção, garantindo que respondem à complexidade real da violência contra crianças.Este mundo não é para crianças. Mas tem, obrigatoriamente, de passar a ser.