Este país não é para crianças

Rute Agulhas

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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Há momentos em que a realidade nos obriga a encarar o lado mais sombrio da condição humana. A morte da pequena Lara, alegadamente às mãos da madrasta como forma de vingança contra o pai, e o caso do homem que se atirou de um prédio levando consigo a filha de quatro anos, são duas situações na mesma semana que, embora distintas, revelam a mesma verdade brutal: as crianças continuam a ser usadas como instrumentos nos conflitos dos adultos.

E é aqui que precisamos de dizer, com todas as letras: este país não é para crianças.

Não é, quando continuam a ser colocadas no centro de disputas conjugais, usadas para ferir, manipular e controlar. Não é, quando a sua vulnerabilidade é explorada como ponto fraco do outro. Não é, quando a morte de uma criança se torna a forma mais extrema de vingança.

Mas estes casos expõem também as fragilidades do nosso sistema de proteção. Um sistema cansado, gasto, em burnout, onde muitos profissionais fazem o impossível com recursos insuficientes. Um sistema onde crianças se tornam meros números processuais, acumuladas em listas de espera, porque há sempre outros casos “mais urgentes” que precisam de ser priorizados. E quando tudo é urgente, nada é verdadeiramente protegido.

Precisamos de assumir que não basta boa vontade. Precisamos de estrutura, método e visão.

É urgente criar protocolos de atuação específicos para os diferentes tipos de violência, porque violência doméstica, violência sexual, violência emocional ou negligência exigem respostas distintas.

É urgente construir uma rede nacional de respostas qualificadas e especializadas, que garanta equidade territorial e acesso a equipas competentes, independentemente do código postal. Hoje, isso não acontece.

É urgente reforçar equipas com mais formação, mais supervisão e mais estabilidade, porque ninguém consegue proteger bem quando está exausto, isolado ou sem apoio técnico. E é urgente que estas equipas tenham tempo real para avaliar, acompanhar, escutar e decidir.

Estes casos obrigam-nos a revisitar, com rigor e honestidade, as nossas políticas públicas e as estratégias de intervenção e prevenção, garantindo que respondem à complexidade real da violência contra crianças.

Este mundo não é para crianças. Mas tem, obrigatoriamente, de passar a ser.

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