Estará Ronaldo zangado por pagar tão pouco?

Cecília Carmo

Subdiretora do Diário de Notícias

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Cristiano Ronaldo defendeu que a sua atitude devia ter consequências e que a condição de capitão não devia servir-lhe de atenuante. A decisão da Federação Portuguesa de Futebol foi uma suspensão de 30 dias da seleção e uma multa de 255 euros, na sequência do abandono do estágio em Copenhaga. A pergunta é provocatória, mas legítima: estará Ronaldo zangado por pagar tão pouco? Não sabemos o que pensa sobre o valor. Sabemos que a multa é surpreendentemente baixa para uma infração que o próprio reconheceu.

O regulamento previa, para o abandono injustificado de uma atividade da seleção, uma suspensão de um a seis meses e, para um jogador profissional, uma multa entre 510 e 1020 euros. A confissão integral dos factos pode reduzir para metade os limites das sanções. A multa aplicada corresponde, assim, ao mínimo depois dessa redução; a suspensão de 30 dias fica acima do mínimo reduzido, que seria de 15 dias.

"(...) Pode agora questionar-se se a multa mínima reduzida corresponde à gravidade que ele próprio atribuiu ao seu gesto. Talvez esteja, afinal, zangado por pagar tão pouco."
"(...) Pode agora questionar-se se a multa mínima reduzida corresponde à gravidade que ele próprio atribuiu ao seu gesto. Talvez esteja, afinal, zangado por pagar tão pouco." FOTO: Gerardo Santos

Ronaldo não contestou que saiu da concentração. Explicou a decisão com uma quebra de confiança em Jorge Jesus, depois de não ter sido utilizado frente à Noruega, e pediu desculpa aos colegas e aos adeptos. A frustração pode ser compreendida. Não lhe dava, porém, o direito de decidir sozinho que o estágio tinha acabado para si. Nenhum jogador, por maior que seja o seu estatuto, está acima das regras da equipa que representa.

É aqui que a sanção merece discussão. Trinta dias sem representar Portugal têm peso desportivo e simbólico. Os 255 euros, para um jogador da dimensão de Ronaldo, parecem uma consequência meramente formal. A multa não precisa de ser elevada para atingir alguém; precisa, isso sim, de transmitir que a disciplina da seleção se aplica a todos e que abandonar um estágio não se resolve com um pedido de desculpas e um valor quase insignificante.

O próprio Ronaldo afirmou que não devia haver atenuantes e que ser capitão constituía uma agravante. Se queria que as atitudes tivessem consequências, pode agora questionar-se se a multa mínima reduzida corresponde à gravidade que ele próprio atribuiu ao seu gesto. Talvez esteja, afinal, zangado por pagar tão pouco. A ironia não está em adivinhar o seu estado de espírito, mas em confrontar a sua declaração com o resultado.

"Trinta dias sem representar Portugal têm peso desportivo e simbólico. Os 255 euros, para um jogador da dimensão de Ronaldo, parecem uma consequência meramente formal.”

O Conselho de Disciplina da Federação deve explicar com clareza os fundamentos da decisão e a forma como aplicou as regras. A transparência é essencial, sobretudo num caso acompanhado por milhões e envolvendo o capitão da seleção. O critério usado com Ronaldo tem de ser compreensível e valer também para qualquer outro jogador.

A relação entre Cristiano Ronaldo e a seleção não se resume a esta multa. O seu contributo para Portugal é incontestável, mas o passado não pode comprar imunidade para o presente. O capitão pediu consequências. A suspensão existe; agora, cabe à Federação demonstrar que a disciplina da equipa não depende do nome inscrito na camisola. E que é, e será, igual para todos.

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