Seria até conveniente, mas a incerteza internacional sobre o Médio Oriente e a flutuação dos preços do petróleo não pode explicar tudo. Nem sequer a guerra continuada na Ucrânia.O Governo concentrou-se no último ano em fazer aprovar uma alteração ao Código do Trabalho que ninguém pediu e, pelos vistos, quase ninguém queria. Procurava tornar mais fácil e mais barato o despedimento dos trabalhadores e aumentar o uso dos contratos de trabalho a prazo. Investiu nisso, nisso falhou, oferecendo ainda como cereja no topo do bolo a sua dependência pueril de um partido sem qualquer coerência ou ideias que transcendam o oportunismo conveniente do momento.Disse também que assumia que o acesso à habitação era uma prioridade e fez mudanças, que chamou de reformas, basicamente na área fiscal, reduzindo os impostos de senhorios. Os mesmos senhorios que, ainda esta manhã, através de um dos seus representantes, disseram, aliás, que aguardavam mudanças para poder ser mais apetecível e mais justo arrendar uma casa, “como o Governo prometeu”. Os valores de renda para habitação continuam basicamente os mesmos, muito acima dos salários. Os valores de compra também.E o poder de compra das pessoas? Talvez um dos membros do Governo cuja intensidade de atenção se tenha concentrado na reforma laboral pudesse ter dado o seu tempo por mais bem empregue se tivesse ido a um supermercado. Quando o preço da fruta e dos legumes é idêntico em Lisboa e em Helsínquia, creio que estamos conversados. É o sonho da convergência europeia tornado realidade – mas apenas para quem vende.O Orçamento do Estado para 2025 afetou cerca de 13% da despesa pública à área da Saúde. Isto significa também que o que se gasta em Saúde nos coloca ao mesmo nível da média da OCDE, da Noruega ou da Itália, em percentagem do PIB per capita. Não obstante, as famílias em Portugal custeiam mais de 37% do total despendido em Saúde através das suas despesas privadas, o que pode comparar com apenas 13% na Alemanha ou 16% na Suécia. E, já agora, 40% dos portugueses reportam que têm necessidades de saúde não satisfeitas, o pior resultado de entre os países europeus da OCDE, segundo o estudo de Ana Pinheiro e Jorge Braga Ferreira, no âmbito do Conselho de Finanças Públicas, de maio de 2025.A desigualdade de acesso e tratamento e a imprevisibilidade que está presente no Serviço Nacional de Saúde, não sendo de hoje, mereceria certamente uma atenção especial e, essa sim, reformadora, se se quiser assegurar um acesso universal à saúde em termos mais justos e mais eficazes. Isso foi prometido em 2024 e, manifestamente, dois anos depois, não foi cumprido.Portanto, quando o primeiro-ministro vier nas televisões, com o seu piquinho de vendedor de carros e de banha da cobra (bens, aliás, cujos preços também dispararam) cruzado com autor consagrado de autoajuda, falar do Cristiano Ronaldo e de como este nos deve inspirar a todos... é mandá-lo ir comprar tomates e arrendar um T1 na Falagueira. Quaisquer 955 euros, preços do dia de hoje, o permitem, mas se for apenas até 2 quilogramas. Um achado, para os 920 euros de salário mínimo bruto por aqui.