Estado da Nação ou ‘avalanche’ de comícios?

Pedro Sequeira

Editor-executivo do Diário de Notícias

Publicado a

O debate do Estado da Nação é um momento mediaticamente relevante no calendário político nacional, até por marcar o fim da sessão legislativa antes de o Parlamento ir de férias. No entanto, apesar do peso institucional, o debate em que é suposto o primeiro-ministro prestar contas ao Parlamento resulta, quase sempre, numa discussão improdutiva.

Não por falta de assuntos que mereçam análise – há tantos, da polémica dos exames nacionais às ameaças às contas do país que podem resultar do conflito no Médio Oriente e da subida dos juros –, mas mais pelo comportamento de trincheira adotado pelos partidos e respetivos deputados.

Ao invés de se avaliar o Estado da Nação, ouvindo o máximo de entidades apartidárias, académicos e especialistas que estudem os setores e forças ativas que operem nos mesmos, o debate serve, principalmente, para dar aos portugueses visões unilaterais sobre o momento que o país atravessa.

Um tipo de comunicação que, de resto, começa logo pela forma como muitos políticos contactam com a população, sobretudo em tempo de campanhas eleitorais, quando evitam sair da sua própria bolha mediática e dão primazia a frequentar ambientes protegidos que espelhem, o máximo possível, aquilo que eles dizem ser a realidade do país. Ações feita à medida, como um fato de alfaiate, da mensagem política que querem fazer passar.

Para esta quinta-feira, 16 de julho, o filme já tem há muito o guião traçado. Como é hábito, há um primeiro-ministro que toma a palavra e descreve um país em que todos sonhariam viver, arrancando aplausos aos partidos que o apoiam no Parlamento. Dá conta de projetos concluídos, outros em curso, outros para o futuro próximo. De finanças robustas ou a melhorar, numa sociedade em que nota sinais positivos por toda a parte: nas escolas, nos hospitais, na Justiça, e por aí fora.

Sempre acrescentando um “apesar das dificuldades”, para o trabalho do Governo ser mais valorizado, pois se fosse fácil qualquer um serviria para estar no seu lugar e o primeiro-ministro, sublinha perante a oposição, está ali porque foi escolhido pelos portugueses para liderar o único Governo capaz de lhes apresentar bons resultados. Se algo está mal, não há problema: aciona-se a máquina de spin e atira-se a culpa para quem o antecedeu no cargo ou para as forças de bloqueio parlamentar que não o deixam governar com ambição.

Na oposição, também o guião está gasto. Está sempre tudo mal. Tudo por fazer. Oportunidades a serem desperdiçadas e uma sucessão de políticas incapazes de conter a saída dos mais jovens do país, cuidar dos mais velhos ou defender os trabalhadores. E na rua, cuidado, muito cuidado, é andar com as mãos nos bolsos e mochila virada para a frente porque o perigo espreita a cada esquina.

Alguém acredita que quinta-feira será muito diferente disto? Discutir o Estado da Nação deveria ser uma oportunidade de olhar a 360º, tomar o pulso ao país, balizar metas com base em informação concreta. Mas com este modelo de discussão, que de resto se confunde com os debates quinzenais com o primeiro-ministro, o que restará é a soma de meia-dúzia de comícios partidários à procura do melhor soundbite da tarde.

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